quarta-feira, 14 de julho de 2010

"Formação jurídica não é essencial para delegado"


"Formação jurídica não é essencial para delegado"

Se crimes fiscais são investigados por técnicos e auditores, e crimes eletrônicos podem ser mais facilmente identificados por analistas de sistemas, a formação jurídica é tão fundamental para a função de delegado de polícia, de forma a ser requisito básico para os concursos públicos? Na opinião do procurador-regional da República Wellington Cabral Saraiva, da 5ª Região, não. O debate foi levantado durante o II Congresso Brasileiro de Carreiras Jurídicas de Estado, realizado nesta semana em Brasília pela Advocacia-Geral da União e por entidades de classe de magistrados, advogados, promotores e delegados.

Segundo o procurador, a "bacharelização" dos delegados provoca uma burocracia desnecessária no trâmite dos processos. "Há consequencias simbólicas fortes, porque os profissionais acabam querendo prerrogativas das carreiras jurídicas", diz. Isso resulta, em sua opinião, em formalização inútil. "O relatório do inquérito serve apenas para analisar os fatos e provas, e não para se fazer uma análise jurisprudencial", o que posterga os resultados e toma tempo que poderia ser gasto nas investigações. "Há delegados que chegam a sugerir o arquivamento da Ação Penal, o que é função apenas do Ministério Público", critica.

Outra extravagância da fase de investigação, na opinião de Saraiva, é o indiciamento, que é a simples declaração do delegado sobre a autoria e materialidade do crime. "Não serve para absolutamente nada, porque não está vinculado ao inquérito, e serve apenas para a estigmatização do acusado", afirma. Segundo ele, muitos casos em que o acusado é indiciado, ou seja, declarado suspeito pela polícia, o inquérito sequer começou.

O delegado federal Marcos Leôncio Sousa Ribeiro, diretor de Assuntos Parlamentares da Associação dos Delegados da Polícia Federal, reconhece que a carreira policial não é jurídica, mas "multidisciplinar". "É por isso que seu papel é mais importante na investigação", diz.

As investigações são outro ponto de discórdia entre as carreiras. Saraiva criticou o que chamou de "falta de sintonia" entre MP e policiais. "Como titular da Ação Penal, o MP tem a prerrogativa de pedir à polícia que procure uma testemunha, por exemplo. Mas o sistema não funciona assim, já que tanto promotores quanto juízes e policiais podem produzir provas", afirma. Segundo ele, isso torna o Ministério Público "mais ou menos" titular das apurações, sendo que é ele quem decidirá se há ou não provas contra o acusado.

sábado, 10 de julho de 2010

Viram isso? Serviço recebe 73 denúncias de abuso contra criança por dia

Terça, 6 de julho de 2010, 17h26 Atualizada às 17h44

Serviço recebe 73 denúncias de abuso contra criança por dia

Ana Cláudia Barros e Dayanne Sousa

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4547683-EI6578,00.html

A cada dia, 73 casos de violência contra crianças e adolescentes são registrados pelo Disque 100, serviço da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. De janeiro a junho deste ano, o órgão contabilizou 13 mil denúncias. O dado foi divulgado nesta terça (06) e corresponde ao balanço das ocorrências relatadas por telefone ou e-mail.

A média diária dos primeiros seis meses de 2010 se aproxima da registrada ao longo de 2009, quando foram notificadas em torno de 82 denúncias/dia. A Secretaria de Direitos Humanos destaca que uma única denúncia pode conter mais de um tipo de violência e mais de uma vítima. Em todo o ano de 2009, o número de casos relatados chegou a 29.756.

Para o registro, são considerados três tipos de violência: negligência; violência física e psicológica e violência sexual. Esta última é o tipo mais frequente e corresponde a 36% de todas as denúncias. Ataques físicos e psicológicos respondem por 35% dos registros e negligência (que inclui abandono ou maus cuidados), 29%.

Entre os tipos de violência sexual relatados ao Disque 100, o mais recorrente é o abuso sexual (65,12%), seguido de exploração sexual (33,90%), pornografia (0,62%) e tráfico de crianças e adolescentes (0,35%). Nesses casos, as meninas são predominantemente o alvo. Elas correspondem a 80% das vítimas de exploração e pornografia, 77% das que sofrem com tráfico de crianças e adolescentes e 79% das atingidas pelo abuso sexual.

A região Nordeste foi a que mais ofereceu denúncias ao serviço, registrando mais de 5 mil casos. Ela é seguida pelas regiões Sudeste (4.288), Sul (1.554), Centro-Oeste (1.152) e, por último, pela região Norte (1.139). Essa ordem se mantém se considerada a média de denúncias verificada entre 2003 e 2009, com a diferença de que a região Centro-Oeste, anteriormente, estava atrás da região Norte.

O Disque 100 é um serviço que recebe, encaminha e monitora denúncias de violência contra crianças e adolescentes vindas de todos os estados brasileiros. Os relatos podem ser feitos por meio de ligação gratuita para o número 100, e do exterior, através do número telefônico pago 55 61 3212.8400. A partir de 2008, além das ligações, o serviço passou a dispor do endereço eletrônico: disquedenuncia@sedh.gov.br e receber retorno das denúncias por meio de uma área de monitoramento - monitoramento100@sedh.gov.br.

Está no ar a versão 2010 do portal eletrônico do Observatório Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente


Foi apresentada na última sexta-feira, dia 01 de julho, em Brasília, a versão 2010 do portal eletrônico do Observatório Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, mantido pela SDH, por meio da Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente.
 
A nova versão traz roupagem nova e ferramentas adicionais em relação à versão 2009. Sua atualização foi realizada com base nas contribuições das equipes da SDH e também dos estados que pactuaram o Compromisso pela Redução da Violência contra Crianças e Adolescentes, objeto da Agenda Social Criança e Adolescente.
 
Nessa oportunidade, o Observatório convida todos(as)  para visitar o portal e conferir o conjunto de novidades disponíveis, inclusive seu endereço corporativo. Para acessar digite
www.obscriancaeadolescente.gov.br

os dez países onde as pessoas mais têm armas de fogo.

Um Estudo divulgado este mês pela ONU e, intitulado A Globalização do Crime: Uma Avaliação sobre a Ameaça do Crime Organizado Transnacional, mostrou quais são os dez países onde as pessoas mais têm armas de fogo.

1º. Estados Unidos: 270 milhões de armas em poder de civis
2º. Índia: 46 milhões
3º. China: 40 milhões
4º. Alemanha: 25 milhões
5º. França: 19 milhões
6º. Brasil: 15 milhões
7º. México: 15 milhões
8º. Rússia: 13 milhões
9º. Iêmen: 12 milhões
10º. África do Sul: 6 milhões

Fonte: ONU

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Queda de homicídios em Pernambuco é a maior em 8 anos

Violência

Queda de homicídios é a maior em 8 anos

Publicado em 08.07.2010, às 01h15

João Valadares Do Jornal do Commercio

Dados oficiais da Secretaria de Defesa Social (SDS) apontam redução de 13% da taxa de homicídios por 100 mil habitantes no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado. Ao analisar o quadro histórico dos primeiros semestres, desde 2003, quando o governo estruturou o mecanismo de contagem, constata-se que os índices contabilizados de janeiro a junho são os mais baixos dos últimos oito anos. Nos seis primeiros meses do ano passado, 2.120 pessoas foram assassinadas no Estado. Agora, 1.865. São 255 mortes a menos. Outro dado que reflete a consolidação da queda é que em junho, historicamente um dos meses mais violentos, foram registrados 284 assassinatos, único do ano com menos de 300 mortes violentas. É também o mês menos violento da série histórica.

As estatísticas são motivadoras. Pela primeira vez, Pernambuco registra 19 meses seguidos de redução. Desde 2008, o número de crimes violentos letais intencionais (soma dos homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte) no mês corrente é menor do que no mesmo período do ano anterior. Para o secretário de Defesa Social, Wilson Damázio, a mudança de gestão das polícias, baseada nas diretrizes do Pacto pela Vida, é determinante para o recuo. "É preciso ressaltar também o trabalho dos policiais nas operações coordenadas pela SDS", explicou.

Das 26 Áreas Integradas de Segurança (AIS), divisão territorial para facilitar os mecanismos de cobrança de resultados, 16 apresentaram redução na taxa de assassinatos. A maior diminuição foi contabilizada na AIS Salgueiro, no Sertão. Lá, no primeiro semestre, foram sete mortes a menos, o que significou redução na taxa por 100 mil habitantes de 41%. Na AIS Araripina, também no Sertão, taxa recuou 35,1%. No Recife, o território de Campo Grande, Zona Norte, e Iputinga, Zona Oeste, teve 12 mortes a menos. Na taxa, uma diminuição de 20,3%. Chama a atenção o aumento de 52,7% na AIS Floresta. "Este caso de Floresta é específico. Houve lá uma chacina com seis mortos", declarou o secretário.

Desde dezembro de 2009, a Polícia Civil ganhou reforço das chamadas equipes CVLI, compostas por um delegado, um escrivão e quatro agentes. Eles atuam nas Áreas Integradas de Segurança. São 37 grupos: 15 na Região Metropolitana do Recife, exceto na capital, que já é atendida pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), e 22 equipes no interior do Estado. Todos os investigadores passaram por estágio no DHPP.

REFORÇO - O chefe de Polícia Civil, Manoel Carneiro, ressaltou que o reforço na investigação específica de homicídios é um componente forte para justificar os resultados apresentados. "O importante é que esta equipe vai ao local de crime e fica na investigação até o fim. É dedicação exclusiva. Todo mundo foi capacitado no DHPP." Carneiro fez questão de salientar o programa Malhas da Lei, desenvolvido em parceria com a Polícia Militar. "É um mecanismo para destravar mandados de prisão. Verificamos uma relação entre a prisão das pessoas e a redução dos assassinatos. Destaco também as várias inovações no planejamento operacional das ações policiais."

A cobrança de resultados, levada a outras áreas do governo, é apontada como um dos fatores decisivos. Monitoramento de desempenho funciona da seguinte forma: Estado foi dividido em 217 circunscrições. Na capital, uma circunscrição corresponde a um agrupamento de bairros. No interior, elas podem corresponder até a um município inteiro.

Cada uma das circunscrições tem um delegado e um oficial da PM como gestores. Esses policiais prestam conta semanalmente sobre os CVLIs em suas jurisdições. Acima dos gestores de circunscrições estão os gestores das 26 áreas, que respondem a gerentes de cinco territórios, subordinados ao chefe de Polícia Civil e ao comandante da Polícia Militar. Os dois comandantes se reportam ao secretário de Defesa Social, que responde ao governador.

Uma vez por mês, o governador Eduardo Campos comanda uma reunião onde os dados de CVLI de todo o Estado são monitorados. As áreas que atingem as metas ganham a cor verde. As que registram aumento da violência ficam vermelhas.



quinta-feira, 1 de julho de 2010

UE pode apoiar projetos de direitos humanos no Brasil


30/06/2010 - 19h36min

Participam do seminário cerca de 50 instituições e especialistas brasileiros e mais 15 europeus

Agência Brasil

A União Europeia e o governo brasileiro devem estabelecer em breve um novo acordo de cooperação técnica e financeira para projetos de direitos humanos. O interesse é viabilizar ações da sociedade civil e políticas públicas em favor dos defensores de direitos humanos; do controle externo da polícia e da promoção dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT).

O valor do recurso que será doado, a contrapartida nacional e os prazos ainda não estão definidos. A Secretaria de Direitos Humanos promove até amanhã em Brasília o seminário Diálogos sobre Direitos Humanos no Brasil e na União Europeia: Instituições Públicas e Sociedade Civil para que sejam identificados projetos e avaliada a possibilidade de parcerias com instituições civis.

Segundo a subsecretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Lena Peres, a partir dessa identificação será definido o valor da cooperação. Ela informou que a escolha se baseará na terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) e na manifestação das entidades. "Queremos dar total voz para a sociedade civil."

Brasil e União Europeia já firmaram convênio em 2007 e 2008, no valor aproximado de R$ 16,5 milhões, que viabilizou a implementação de ouvidorias nas polícias de 17 estados brasileiros. Além dessa área, Lena Peres informou que a intenção é incrementar o que chama de "proteção social" dos defensores de direitos humanos, promovendo atividades para a mobilização da opinião pública local em torno da causa dos defensores.

Lena avalia que a cooperação com a União Europeia pode ser útil para ver como o Estado e a sociedade em países como Espanha, Holanda e Inglaterra fizeram para garantir direitos dos LGBT à união estável e à adoção e ter ações de combate à violência homofóbica. Segundo estatísticas não oficiais, estimadas pelos movimentos sociais, uma pessoa morre no Brasil a cada 48 horas por causa da intolerância e do preconceito contra homossexuais.

Oscar Vilhena: Movimento dos Direitos Humanos sofre crise de identidade



Oscar Vilhena
São Paulo
Nome: Oscar Vilhena
Idade: 44 anos
Local de nascimento: Taubaté, São Paulo
Profissão: advogado, professor, diretor executivo da ONG Conectas Direitos Humanos
Formação: Possui graduação em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1988), mestrado em direito pela Universidade de Columbia (1995), mestrado em ciência política pela Universidade de São Paulo (1991), doutorado em ciência política pela Universidade de São Paulo (1998) e pós-doutorado em direitos humanos pelo Centre for Brazilian Studies (Oxford University).

Qual a situação dos direitos humanos no Brasil hoje? Como se desenvolveram e evoluíram os direitos humanos desde a redemocratização do país? O que a segurança pública tem a ver com todo esse debate? E ainda: de que forma a polícia e o governo podem contribuir para que os direitos humanos sejam respeitados? Para responder a essas e outras perguntas, a equipe do Fórum Brasileiro de Segurança Pública convidou o advogado Oscar Vilhena para um bate-papo na sede da instituição, em São Paulo.

Apesar de o direito constitucional ser sua principal área de atuação e pesquisa, Vilhena tem uma extensa biografia ligada aos direitos humanos. Trabalhou na Comissão Teotônio Vilela nos anos de 1980, exerceu o cargo de secretário-executivo do Ilanud (Instituto Latino Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente) e foi procurador do Estado de São Paulo por 11 anos. Além disso, deu aula de direitos humanos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e ajudou a fundar a organização não-governamental Conectas Direitos Humanos, na qual hoje é diretor executivo. Atualmente é também professor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

Integrante do corpo de associados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Vilhena é autor de diversos livros, entre eles "Direitos Fundamentais: uma Leitura da Jurisprudência do STF". Em cerca de duas horas de entrevista, o advogado relembrou sua trajetória, fez um panorama dos direitos humanos no Brasil e analisou a questão da segurança pública e os problemas que atingem nossas polícias.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

PERGUNTA - Como se deu sua aproximação com os direitos humanos?

OSCAR VILHENA - Entrei na faculdade em 1984 e peguei o rabicho do regime militar. Fui parar em direitos humanos devido a uma conjunção de razões. Uma é muito familiar: meus pais são de uma outra geração que fez PUC e militou em movimento estudantil. Tinha uma coisa de catolicismo progressista em casa. Lembro que eram todos contra o regime militar. Sou de Taubaté, mas, no período de transição para a democracia, meu pai veio para São Paulo trabalhar no governo Montoro. Ou seja, o ambiente de casa era favorável aos direitos humanos.

Quando estava no quinto ano de faculdade de direito na PUC, resolvi abandonar o curso, pois achava meus professores todos uns reacionários. Aí fui conversar com o Paulo Sérgio Pinheiro [advogado, cientista político, professor e pesquisador de universidades como USP e Unicamp], que tinha uma coluna no jornal Folha de S. Paulo chamada "Escritos Indignados", sobre direitos humanos. Ele disse que eu estava louco por querer abandonar o direito (risos). Terminei o curso e entrei no mestrado em ciência política na Universidade de São Paulo (USP), e logo o Paulo Sérgio me convidou para ser secretário-executivo da Comissão Teotônio Vilela [organização não-governamental criada em 1983, em São Paulo, que atua na defesa dos direitos humanos]. Ou seja, existia um ambiente familiar e político favorável a uma aproximação com os direitos humanos. Era um período muito rico politicamente, com as passeatas na Praça da Sé, o movimento das Diretas Já. Isso colaborou muito com minha formação.

Minha área sempre foi direito constitucional. Trabalhava num escritório de direito constitucional e acompanhei o trabalho da Constituinte muito de perto. Se por um lado tenho uma vida ligada aos direitos humanos por militância política, nunca escrevi nada sobre direitos humanos. Não é minha área de interesse acadêmico, minha área sempre foi o direito constitucional. Paralelamente também trabalhava na Comissão Teotônio Vilela.

O Paulo Sérgio Pinheiro me fez enxergar de forma muito clara que o fim do regime autoritário não era o início de uma democracia. O fim do regime autoritário não era o início do Estado de direito. Ele me ajudou a ver que essa democracia brasileira encobre um autoritarismo social muito forte. Isso foi fundamental na minha formação dos direitos humanos: perceber que os grupos vulneráveis dentro de um regime democrático continuam ser tão vítimas, ou até mais vítimas, da violação dos direitos humanos que os próprios opositores dos regimes autoritários.

PERGUNTA - Isso é uma percepção fundamental para se compreender a evolução das violações de direitos no país, não?


OSCAR VILHENA - Nós não sabemos estatisticamente como era a relação das polícias, durante o regime autoritário, com as populações mais carentes. Há uma impressão geral de que nunca houve um consenso de que as classes populares são sujeitos de direitos.

O Brasil era, até os anos de 1960, um país majoritariamente agrário, quando então começa a se dar o fenômeno da urbanização. E isso se deu dentro de um processo de crescimento econômico muito forte, ao lado de uma estrutura repressiva. Quando o país se redemocratiza e você tem junto uma crise econômica, temos um problema de que as vastas áreas urbanas em torno das principais cidades passam a ser zonas de conflito violento. Várias coisas ocorreram ao mesmo tempo: primeiro, uma crise econômica com uma nova urbanização. Segundo, uma transformação cultural: deixamos de ser um país tradicional, em que as hierarquias sociais funcionavam muito bem e passamos a ser um país desorganizado do ponto de vista das hierarquias. É um processo de democratização social, mas é também um processo de desajuste. Você passa a não contar mais com a religião, a submissão voluntária.

As mudanças demográficas são muito importantes ao se analisar isso. Ao sair da roça, a pessoa não tem mais as estruturas culturais de contenção que inibem a prática de determinados crimes. Há países que são muito pobres, mas os índices de violência são baixos. Onde houve grandes deslocamentos, acabam-se os mecanismos de contenção social. Você não é mais parte daquele grupo ao qual teme. Você passa a ser um cara que se deslocou para a periferia de uma cidade grande e não há mais ninguém para quem você deve prestar contas, não há mais a comunidade. Esse processo de urbanização deu-se no Brasil, encavalando-se com outros fatores, como uma crise econômica fantástica. Há, então, uma desagregação social profunda.

PERGUNTA - O Brasil se moderniza, mas isso acarreta uma leva de graves problemas sociais.

OSCAR VILHENA - O Brasil se modernizou e abdicou de ser um país tradicional onde a repressão social estava presente. Isso foi ótimo, maravilhoso, pois o país estava se modernizando. Por outro lado isso gerou um novo fenômeno. Se você não tiver como integrar essas pessoas socialmente, seja no mercado de trabalho ou urbanamente falando, de ter uma casa onde morar, então a pessoa perde todos os parâmetros nessa nova lógica democrática. É um processo positivo, mas há nele um ponto de transição dramático, ainda mais quando esse ponto de transição dá-se dentro de uma esfera de crise econômica.

Isso gera, por parte da polícia e por parte da sociedade em geral, uma demanda de contenção. E essa demanda vai fazer com que uma polícia que está saindo de um regime autoritário utilize dos meios aprendidos durante esse regime autoritário. E aí temos esse cenário assustador de violação por parte da polícia.

PERGUNTA - Na época, percebeu-se que isso estava acontecendo?

OSCAR VILHENA - Na época começamos a detectar que isso era um problema central: as polícias estavam buscando superar sua própria incompetência em controlar a criminalidade com a exarcebação da violência. A polícia buscava superar sua própria incapacidade de conter a criminalidade com a exacerbação da violência, especialmente a Polícia Militar. A Polícia Civil tem uma outra trajetória, que é também a de usar a violência, mas de uma outra forma, principalmente para a extorsão, para também superar sua incapacidade investigativa. Ela não sabia investigar, mas o mundo tinha mudado completamente. Instrumentos que ela tinha eram aqueles que vieram do regime militar, como a tortura, então ela transfere isso para a prática cotidiana.

PERGUNTA - Como você analisa a situação dos direitos humanos hoje no Brasil?

OSCAR VILHENA - Enquanto houve um avanço muito forte na área da academia, no pensamento sobre a polícia, houve um afastamento mútuo entre as pessoas que falam sobre polícia e aquelas que falam sobre direitos humanos.

Houve um crescimento muito grande da violência nos centros urbanos. O Brasil se despede de uma sociedade onde você podia sair na rua sem medo para uma outra onde as pessoas sentem-se aterrorizadas. Isso comprimiu muito o espaço de discussão dos direitos humanos no Brasil. As grandes comissões, os grandes grupos formados no período militar, especialmente com a subvenção política e financeira da Igreja, vão ficando acuados nesse discurso.

Houve um marasmo no movimento de direitos humanos strito sensu nos anos de 1990 no Brasil. Acho que as organizações de direitos humanos perderam totalmente a mão, perderam o mandato, não sabiam mais como fazer. Diante de uma classe média atemorizada pelo crescimento da violência, essas organizações perderam o ímpeto de colocar a questão dos direitos humanos de uma forma contundente. O espaço na mídia também diminuiu. O discurso das organizações de direitos humanos ficou reduzido. Para os padrões de violência que nós temos, o grau de reclamo social por violência policial ainda é pequeno.

Isso não quer dizer que a sociedade civil não estava se articulando. A Constituição de 1988 abriu espaço para outros temas de direitos humanos, como o tema da mulher, por exemplo. O avanço que você tem na questão do direito da mulher nestes 20 anos é impressionante. O movimento gay também tem uma explosão. Não é que o movimento de direitos humanos como um todo se fragilizou, mas uma de suas partes, que era a parte central, a meu ver se fragilizou. Ou ele se pulverizou em outras demandas, como a do movimento negro, dos gays, dos deficientes, das mulheres.

Em relação aos novos temas, aí se trata de algo magnifico. Pense, por exemplo, no que aconteceu na área indígena. O problema indígena continua existindo, mas a pedra central desse problema, que era a demarcação das terras, foi feita. O tema das mulheres também: elas saem de um patamar de menos educação que os homens e hoje elas têm mais educação que os homens. O tema gay, que era inexistente, hoje é impressionante, com o STJ reconhecendo que casais gays podem adotar. Ou seja, o Brasil modernizou-se, com diversos temas sociais entrando na agenda. Hoje temos ação afirmativa para garantir direitos de pessoas de cor. Essa é minha visão, muito entusiasmada, de que houve uma forte mudança. Assim como houve no tema da segurança uma forte qualificação dos quadros para pensar seus problemas, também houve isso na área da sociedade civil.

Mas acho que, no ponto específico da violência, nós perdemos espaço.

PERGUNTA - Uma parte significativa da população aprova e apoia ações violentas da polícia. Quando a polícia mata, elas dizem que não teve outro jeito, como se a polícia não pudesse agir de uma maneira diferente e como se isso não fosse uma pauta a ser discutida.

OSCAR VILHENA - É isso o que estou falando sobre a questão da falta de espaço. Veja, por exemplo, a questão da mídia: se você, como organização de direitos humanos, quiser estar presente na mídia, é fácil. Basta servir ao espaço reativo. Morre uma pessoa, a mídia chama um especialista em direitos humanos, depois chama alguém da PM e você vai para uma briga em que cada lado acha que ganhou. Agora se você for olhar qual a opinião da população sobre o assunto, vai ver que foi massacrado. Precisamos tomar cuidado para não ser mais sparrings. E esse era um pouco a visão do Ilanud, de ter um discurso sobre direitos humanos que alinhave com o discurso da segurança pública. Temos de falar: polícia comunitária é melhor, vai garantir uma polícia honrada, honesta, vai melhorar as investigações. Ou seja, você tem de ter um discurso de polícia para poder ter um discurso de direitos humanos, do que simplesmente dizer que a polícia não pode matar.

A Conectas e a Justiça Global são duas organizações resistentes. A Conectas teria muito mais dinheiro se fosse falar de outra coisa. O movimento continua, mas o espaço social desses grupos não é grande. São grupos com pouco apoio de uma elite liberal.

O Brasil é um país complicado de você constranger moralmente. É uma crise de identidade muito forte a dos direitos humanos. Há um declínio fortíssimo na percepção de que os direitos humanos são algo importante.

PERGUNTA - Já em relação aos movimentos pró-juventude, você acha que perderam ou ganharam espaço?

OSCAR VILHENA - O movimento pró-Estatuto da Criança e do Adolescente tem um segmento de institucionalidade mais forte. Eu, que sou um advogado mais institucionalista, acredito que a sociedade se organiza em torno das instituições que ela arma. A Constituição de 1988 e o ECA armam um sistema. Em primeiro lugar, impactam completamente a estrutura do Ministério Público. Esse era um não-problema para o MP, que passa a ser protetor. O MP não é um aparato à toa. Você pode ter várias críticas a ele, mas ele é grande, institucional e forte nas suas relações. Hoje temos cerca de 14 mil promotores no Brasil, sendo que uma parte deles tem como foco a criança e o adolescente. Evidente que isso gera um grau de institucionalidade da defesa desses interesses que é maior que dos direitos humanos latu sensu, porque não existe promotor dos direitos humanos, apenas da cidadania. Por que não tem? Ninguém quer colocar a mão nessa cumbuca.

A Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) também criou algo fantástico, porque até então o tratamento do tema na mídia era um desastre. É fantástica a mudança da mídia após a criação da Andi, ela aprendeu a lidar com esse problema e a cobrar. Avançamos muito.

Evidentemente que há um lado em que menos avançamos, que é o lado do jovem em conflito com a lei.

PERGUNTA - Com exceção do jovem infrator, né?

OSCAR VILHENA - Claro. Todo mundo que te ameaça é demonizado. Se você cai nessa categoria, ninguém te protege. A não ser grupos muito expostos, que estão muito dispostos a comprar briga, mas mesmo assim ficam acuados.

PERGUNTA - Pela sua fala, a questão da violência policial é um dos maiores, senão o maior, tema de violação de direitos humanos no Brasil atual. Como você entende a chave para tratar essa questão? É uma chave de retomar a legitimidade do Estado, com a sociedade civil, é de reformar a polícia?


Essa resposta vale um milhão de dólares (risos). O problema da polícia no Brasil não é só que ela é altamente arbitrária, mas também altamente ineficiente. E me parece que há uma relação muito forte entre essas duas coisas. A polícia que é violenta e corrupta não é confiável. Não sendo confiável, ela não consegue desempenhar sua função de contribuir e compartilhar dos projetos da sociedade, de poder interferir com eficiência.

Alguns setores da polícia percebem isso e avançam. Outros, não é que eles não percebem isso, é que eles se beneficiam dessa estrutura de corrupção e violência. Eles não têm interesse em mudar. Por que todos nós sabemos que as polícias são pouco eficientes e elas não mudam? Porque a ineficiência encobre outros elementos de interesse.

A polícia é difícil de ser reformada porque as pessoas, ainda que saibam que ela não funciona bem, têm interesses entrincheirados nesse particular modo de funcionamento. São interesses às vezes corruptos, às vezes meramente corporativos. Mexer na Polícia Militar é um negócio fantasticamente difícil no Brasil. Ela tem interesses corporativos, seu orçamento é organizado de uma determinada maneira, ela não está de acordo exatamente com todas as regras que o direito administrativo estipula de transparência. É uma briga. Você vai querer tocar nisso? São interesses entrincheirados de uma grande corporação poderosa, da qual grande parte dos governadores são reféns. O que acontece hoje se houver uma rebelião na Febem? Quem o governador vai chamar? Claro, então, que seus interesses sejam em certa medida preservados.

Já a Polícia Civil perdeu muito do seu espaço social, por incompetência, ou seja, por não produzir algo que é socialmente relevante. A expectativa de que algo seja feito quando se procura a Polícia Civil é muito baixa. Isso não é achismo: basta pegar as pesquisas de vitimização e você vai ver o grau de confiança que as pessoas têm na Polícia Civil. Ao meu ver, é isso: estamos em uma situação onde as instituições são mecanismos de bloqueio, com uma capacidade de bloquear muito elevada. O custo político de uma reforma é altíssimo. Por isso é que muitos desta minha geração falam em modernização, em treinamento, porque a possibilidade de uma reforma institucional, de redesenhar as instituições, é muito baixa. Em vez de falar em reforma institucional, falamos em polícia comunitária, por exemplo.

Evidentemente que tem gente que quer mudar. Mas como é que aqueles que se beneficiam do sistema e que tem seu poder decorrente desse sistema pensam? Acho que a Polícia Militar está mais à frente, porque ela tem percebido que sua desligitimação social foi tão grande que, se ela quiser continuar tendo espaço, tem de melhorar. Há muitos oficiais jovens que querem melhorar, mesmo que não falem publicamente.

PERGUNTA - Um grupo de parentes de desaparecidos da Guerrilha do Araguaia levou o caso para a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA (Organização dos Estados Americanos). Esse tipo de iniciativa traz algum resultado? Em outras palavras, isso serve para alguma coisa?


As pessoas costumam não levar muito a sério o sistema internacional. Mas, no caso do Carandiru, que foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, o Brasil terminou fazendo um acordo amigável. Esse acordo amigável não é público. Não sabemos exatamente seu conteúdo. Mas o interessante é que nesse acordo estava, por exemplo, a demolição do Carandiru. Estava a indenização das vítimas. Estava o fim da justiça militar, além da criação de uma lei contra a tortura. Se você pegar a agenda pós-Carandiru, as vítimas do massacre foram administrativamente indenizadas, a Casa de Dentenção foi derrubada, a justiça militar teve uma parcela de sua jurisdição tirada, ou seja, um imenso sucesso.

É um efeito bumerangue: você joga o bumerangue no sistema internacional e aí ele volta, ajuda, potencializa mudanças internas. Às vezes funciona, outras vezes não funciona. A estratégia é saber de que modo você se apropria dele quando ele volta. Mas se trata de um sistema subsidiário, ele não pode substituir nada. O que importa é o juiz que vai lá toda semana, é o promotor que fiscaliza os casos de violência policial e processa. O sistema interamericano é pequenino, ele é para julgar um grande caso, não o caso do dia-a-dia.