sábado, 23 de outubro de 2010

Colômbia oferece proteção a grupos de direitos humanos ameaçados


Colômbia oferece proteção a grupos de direitos humanos ameaçados

Plantão | Publicada em 23/10/2010 às 09h05m

Reuters/Brasil Online
  • R1
  • R2
  • R3
  • R4
  • R5
  • MÉDIA: 0,0

BOGOTÁ (Reuters) - A Colômbia se comprometeu a garantir as atividades das organizações defensoras dos direitos humanos e ofereceu fortalecer a proteção de seus integrantes depois das ameaças de supostos paramilitares de ultradireita.

Entre as organizações que receberam ameaças por e-mail de supostos paramilitares está o Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola, na sigla em inglês).

"A Presidência da República pediu às autoridades que esses acontecimentos sejam investigados com profundidade e ratifica seu compromisso de garantir o livre exercício das atividades destas organizações", disse um comunicado do governo.

"Assim mesmo, o governo nacional pede à comunidade, às vítimas e aos defensores dos direitos humanos que denunciem esse tipo de ameaça", acrescentou.

Um grupo autodenominado "Águias Negras" declarou como alvo militar vários grupos humanitários que trabalham no país, abalado por um conflito interno de mais de 45 anos que já matou milhares de pessoas.

Estão envolvidos no conflito nacional as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), paramilitares de ultradireita e as Forças Armadas. De acordo com o governo, as Farc e antigos paramilitares se financiam com o narcotráfico.

Além do Wola, a lista de ameaçados inclui a Consultoria para Direitos Humanos e o Deslocamento (Codhes), o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) e a Associação Nacional de Afro-Colombianos Deslocados (Afrodes).

No ano passado, 32 ativistas e defensores dos direitos humanos foram assassinados na Colômbia, de acordo com o programa governamental "Somos Defensores".

(Reportagem de Luis Jaime Acosta)

NOTA PÚBLICA PNDH-3

NOTA PÚBLICA PNDH-3

Data20/10/2010



                                            NOTA PÚBLICA
Em razão de declarações distorcidas sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3, algumas vezes envolvendo má-fé e utilização eleitoreira de suas propostas, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República sente-se no dever de corrigir as afirmações do candidato José Serra que, no Jornal Nacional de ontem à noite (19), declarou que o PNDH-3 "tornava transgressor, criminoso aquele que fosse contra o aborto".

Para que se restabeleça a verdade sobre o PNDH-3, cabe esclarecer:
 
•    o PNDH-3 não torna transgressor ou criminoso quem quer que seja. O Programa trata o aborto como tema de saúde pública. Na redação inicial (21/12/2009) constava "Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos". Na versão definitiva, publicada em 13/05/2010, consta "Considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços de saúde" (Diretriz 9, Objetivo Estratégico III, ação g);

•    o PNDH-3 não foi feito pelo PT ou por um partido. É um decreto presidencial resultado de amplo processo democrático, com propostas debatidas e aprovadas na 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos (2008) e em dezenas de outras conferências com a participação da sociedade civil e governos estaduais.  A Conferência Estadual de São Paulo, por exemplo, foi convocada pelo Decreto 53.005 de 16 de maio de 2008 pelo então governador José Serra. Esta etapa elegeu delegados para a Conferência Nacional, cujas resoluções aprovadas deram origem ao PNDH-3;

•    o PNDH-3 traz diretrizes para orientar o poder público na promoção e defesa dos Direitos Humanos, em total consonância com a Constituição Federal, com as recomendações da Conferência de Viena da ONU (1993) e com os diversos instrumentos internacionais (ONU e OEA) assinados pelo Brasil;

•    o PNDH-3 atualiza os programas de Direitos Humanos lançados em 1996 e 2002. No caso do aborto, por exemplo, o PNDH-2 – da administração Fernando Henrique Cardoso – defendia explicitamente o aborto como tema de saúde pública e propunha a ampliação dos casos em que seu uso seria permitido pela lei. Eis o texto: "Apoiar a alteração dos dispositivos do Código Penal referentes ao estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual mediante fraude, atentado ao pudor mediante fraude e o alargamento dos permissivos para a prática do aborto legal, em conformidade com os compromissos assumidos pelo Estado brasileiro no marco da Plataforma de Ação de Pequim" (ação 179). Determinava ainda a necessidade de "Considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços de saúde para os casos previstos em lei" (ação 334), sendo esta última redação quase idêntica à usada no PNDH-3. 

A desinformação não colabora com o processo democrático, desrespeitando a cidadania e os Direitos Humanos.

                                                        Brasília, 20 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Julgamento da federalização do assassinato do advogado Manoel Mattos


JULGAMENTO DO IDC02

A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a presidência da Ministra Laurita Vaz, prevê para o dia 27 de outubro a retomada do julgamento da federalização do assassinato do advogado Manoel Mattos e dos crimes atribuídos a grupos de extermínio na fronteira entre Pernambuco e Paraíba. Manoel Bezerra de Mattos Neto era advogado, foi ex-vereador e defensor de Direitos Humanos, membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados de Pernambuco, dirigente do Movimento Nacional de Direitos Humanos e do Partido dos Trabalhadores. Desde o ano de 2000, em diversas as oportunidades, o Estado Brasileiro tem notícias da existência e atuação de grupos de extermínio, que seriam compostos por particulares e agentes estatais (policiais militares, policiais civis, agentes penitenciários), e que atuam na divisa entre os Estados da Paraíba e de Pernambuco. Manoel Mattos era um dos que denunciavam amplamente os crimes destes grupos às autoridades estaduais, federais e CPIs, pelo que passou a ser perseguido e ameaçado de morte. Em 24 de janeiro de 2009, Manoel Bezerra de Mattos Neto foi assassinado no litoral paraibano.

No dia 23 de junho de 2009, o Procurador-Geral da República requereu ao Superior Tribunal de Justiça a instauração do Incidente de Deslocamento de Competência - IDC, para transferir para a Justiça Federal a investigação, o processo e julgamento do homicídio de Manoel Mattos, bem como da apuração e repressão aos grupos de extermínio atuantes na divisa dos estados da Paraíba e de Pernambuco em toda sua dimensão, inclusive dos feitos instaurados e arquivados, e dos fatos ainda não objeto de qualquer investigação ou ação penal.

O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana - CDDPH, em sessão de 13 de agosto de 2009, por unanimidade, deliberou absoluto e pleno apoio ao Incidente de Deslocamento de Competência n°. 2. E, por meio da Resolução nº. 04/2009, o Conselho constituiu Comissão Especial com objetivo de "realizar gestões junto à Sociedade Civil e aos Poderes constituídos dos estados da Paraíba e de Pernambuco e autoridades federais, com intuito de agilizar a apuração e a punição do assassinato do defensor dos direitos humanos, Manoel Mattos, bem com seu processo de federalização", viajando para as localidades no mesmo mês de agosto.

É sabido que o pedido de IDC - 02 satisfaz cabalmente os requisitos constitucionais previstos no artigo 109, parágrafo 5º da Constituição Federal: a existência de grave violação de Direitos Humanos e o risco de responsabilização internacional decorrente do descumprimento de obrigações jurídicas assumidas em tratados internacionais.

O julgamento está previsto para o dia 27 de outubro de 2010, na Terceira Seção do Supremo Tribunal Federal, a partir das 13h. Vamos participar desse dia histórico!

 

Serviços

Julgamento do IDC – 02, 27 de outubro, a partir das 13h.

Endereço do STJ: SAFS - Quadra 06 - Lote 01 - Trecho III - CEP: 70095-900 - Brasília - DF
Telefone: 
(61) 3319-8000 | Informações Processuais: (61) 3319-8410.

 

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Em SP, 95% dos crimes ficam impunes



http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,em-sp-95-dos-crimes-ficam-impunes,581914,0.htm

Em SP, 95% dos crimes ficam impunes

Só 1 em cada 20 casos vira processo judicial na capital paulista e qas chances de impunidade dobram se o criminoso não for pego em flagrante

16 de julho de 2010 | 6h 32

Bruno Paes Manso e Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Uma pessoa que cometa um crime na capital paulista tem 1 chance em 20 de ter de responder na Justiça (5,2%). E mais da metade dos processos só é aberta porque o autor do crime foi pego em flagrante. Se isso não ocorrer, a chance de a investigação policial descobrir o criminoso é de apenas 1 em 40 (2,5%).
Veja também
linkMétodo para investigar roubos será aprimorado
Esse mapa da impunidade resulta do cruzamento feito pelo Estado dos dados da produção do Ministério Público Estadual entre 2002 e 2009 com os crimes registrados pela Secretaria da Segurança Pública. Os furtos registrados nas delegacias são o tipo de crime com menor número de denúncias no Judiciário: só 3,1% viram processos. No caso dos roubos, esse número sobe para 4,8%. Entre os crimes com maior índice de resolução estão os homicídios: 32% viram ação penal. Já o alto índice de resolução de estupros (41%) se deve ao fato de que os poucos casos denunciados pelas vítimas geralmente têm autoria conhecida.
Cifras negras. A ineficiência no esclarecimento de crimes pode ser ainda maior. É que os dados levam em consideração só os casos registrados nas delegacias. Cerca de 70% dos crimes não são comunicados à polícia, segundo as três principais pesquisas de vitimização feitas entre 2001 e 2008 no Brasil.
"Existe uma enorme cifra negra nos dados de segurança pública, que ocorre em São Paulo, no Brasil e em outros lugares no mundo. Isso existe porque muitos são vítimas de crime e não registram boletins de ocorrência. Eu mesmo fui vítima de crime, roubaram minha carteira e eu não percebi. Acabei não registrando na delegacia", explica Sérgio Mazina, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (Ibccrim).

Para Mazina, os índices revelam a baixa capacidade de investigação das polícias estaduais, reflexo da ideia de que o combate ostensivo ao crime deve ser priorizado. Isso tem consequências importantes, segundo o presidente do Ibccrim. Os flagrantes, por exemplo, são priorizados, atingindo os pequenos criminosos que atuam nas ruas. As estruturas criminais, contudo, de receptação e encomenda, que fazem novos crimes acontecerem, permanecem intactas.
A diretora de pesquisa do Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas Judiciais, Maria Tereza Sadek, aponta outras consequências no cotidiano da população. "Basta andar na rua. São seguranças privados e carros blindados, soluções privadas, que deveriam ser incumbência do poder público. Não é só no morro que falta Estado. Também falta em Higienópolis, onde moro."
Para Maria Tereza, que também é professora de Ciências Políticas da Universidade de São Paulo, a solução do gargalo do sistema passa pelo envolvimento de todas as partes na questão: polícia, Ministério Público e Poder Judiciário. Cita o exemplo da iniciativa do Conselho Nacional de Justiça, que passou a visitar as penitenciárias para entender o problema e buscar soluções. "O problema só pode ser resolvido se todas as partes assumirem compromisso com mudanças."
O promotor da Vara do Júri, Arual Martins, diz que se antes a "lei do silêncio" atrapalhava as investigações, o desafio atual é a "lei da indiferença". "As investigações são com base em testemunhos e a sociedade hoje prefere não se envolver. Acham que ir à delegacia, ao plenário ou ao júri é perda de tempo."
Como funciona
DO CRIME À DEFINIÇÃO DO CASO PELA JUSTIÇA
1. Registro
Um crime ou um delito ocorre e há a comunicação do caso à polícia (BO).
2. Inquérito
Em homicídios, sempre há. Nos crimes contra o patrimônio, só se houver indício de autoria.
3. Prazos
A polícia tem 30 dias para concluir o inquérito. O prazo pode ser ampliado, com aval do MP.
4. Ministério Público
Concluída a investigação, a polícia manda o inquérito para análise do MP.
5. Processo e julgamento
Cabe ao MP denunciar um acusado à Justiça, que decide se instaura

 

http://www.estadao.com.br/noticias/geral,na-capital-paulista-95-dos-crimes-ficam-impunes,582088,0.htm

Na capital paulista, 95% dos crimes ficam impunes

16 de julho de 2010 | 11h 43

AE - Agência Estado

Uma pessoa que cometa um crime na capital paulista tem 1 chance em 20 de ter de responder na Justiça (5,2%). E mais da metade dos processos só é aberta porque o autor do crime foi pego em flagrante. Se isso não ocorrer, a chance de a investigação policial descobrir o criminoso é de apenas 1 em 40 (2,5%). Esse mapa da impunidade resulta do cruzamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo dos dados da produção do Ministério Público Estadual entre 2002 e 2009 com os crimes registrados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP).
Os furtos registrados nas delegacias são o tipo de crime com menor número de denúncias no Judiciário: só 3,1% viram processos. No caso dos roubos, esse número sobe para 4,8%. Entre os crimes com maior índice de resolução estão os homicídios: 32% viram ação penal. Já o alto índice de resolução de estupros (41%) se deve ao fato de que os poucos casos denunciados pelas vítimas geralmente têm autoria conhecida.
A ineficiência no esclarecimento de crimes pode ser ainda maior. É que os dados levam em consideração só os casos registrados nas delegacias. Cerca de 70% dos crimes não são comunicados à polícia, segundo as três principais pesquisas de vitimização feitas entre 2001 e 2008 no Brasil.
Novas medidas
Levar o modelo da investigação dos homicídios para os delitos contra o patrimônio, como roubo e furtos, é a saída da Polícia Civil de São Paulo para tentar aumentar o índice de esclarecimento desses crimes. A Delegacia Geral prepara portaria para estabelecer um modelo de procedimentos que deverão ser adotados em casos de roubos a condomínios, por exemplo.
Com o novo esquema, a polícia vai mandar uma equipe para o local dos roubos. Os policiais terão a companhia de um perito que vai recolher possíveis pistas. Os investigadores vão ouvir as testemunhas e até o retrato falado deve ser feito na hora. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
 



ministro Paulo Vannuchi participa da entrega Prêmio João Canuto – 2010


Vannuchi entrega prêmio de direitos humanos no Rio

Da Agência Brasil

Rio de Janeiro - O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, participa hoje (21), às 18h, da cerimônia de entrega do Prêmio João Canuto – 2010. A premiação é oferecida pelo grupo de pesquisa Trabalho Escravo, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Movimento Humanos Direitos (MhuD). 

O objetivo é dar visibilidade a empreendedores sociais e organizações que se dedicam à defesa dos direitos humanos. No evento,  o cantor Geraldo Azevedo e a atriz Letícia Sabatella cantam músicas que homenageiam o Rio São Francisco. 

A premiação será no prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, na Urca.

Edição: Graça Adjuto


Nota Oficial: suspensão do julgamento pelo Superior Tribunal Militar sobre candidata à presidência da República

Nota Oficial: suspensão do julgamento pelo Superior Tribunal Militar sobre candidata à presidência da República

A Associação Nacional dos Advogados da União – ANAUNI, entidade de classe de âmbito nacional, que tem por fim a defesa e promoção da carreira de Advogado da União,  vem a público prestar esclarecimentos, com o intuito de informar a sociedade brasileira, sobre a decisão de suspensão do julgamento, pelo Superior Tribunal Militar (STM), do pedido do jornal Folha de São Paulo, para acessar o conteúdo do processo que envolve a candidata à Presidência da República, Dilma Roussef.

É atribuição da Advocacia-Geral da União (AGU), consoante o disposto na Constituição Federal de 1988 (art. 131) a defesa judicial dos Poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário), inclusive de suas autoridades.

Nos termos do art. 7º, II, da Lei nº 12016/2009, o magistrado, ao despachar a petição de mandado de segurança, deve intimar o órgão de representação judicial da União, no caso a AGU, para manifestar interesse em ingressar no feito.

No caso do mandado de segurança impetrado pelo aludido veículo de comunicação, não houve a intimação da Advocacia-Geral da União, consoante determina o dispositivo legal citado. A falta dessa comunicação processual macula o processo de vício insanável, pois atinge frontalmente o princípio do devido processo legal, um dos pilares do Estado Democrático de Direito.

Por essa razão, não se vislumbra qualquer atuação político-partidária da Advocacia-Geral da União no presente caso, uma vez que o mandado de segurança foi impetrado contra autoridade pública federal, qual seja, o Presidente do Eg. Superior Tribunal Militar. Por fim, é de se destacar que a decisão proferida pelo Eg. Superior Tribunal Militar acolheu, por ampla maioria de votos (8 x 2), os argumentos lançados, de maneira técnica e escorreita, pelo Advogado da União, que exerceu suas atribuições constitucionais de defesa do Estado brasileiro e de seus agentes.



domingo, 17 de outubro de 2010

Secretário Ricardo Henriques fala sobre UPP social


ENTREVISTA

Após pacificação, UPP social é a aposta do Secretário estadual de Assistência Social para levar cidadania às favelas

Carla Rocha

RIO - "Vamos combinar?". A pergunta parece boba, mas não para o doutor em economia Ricardo Henriques. Ele a tem levado, como convite, às favelas pacificadas no Rio. Um dos idealizadores do Bolsa Família, Henriques é secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos e assume, aos 50 anos, o desafio de fazer o Estado dialogar com esses territórios, antes dominados pelo crime. Ele propõe uma "escuta forte" - "sem o democratismo banal, em que todo mundo fala" - e quer o paternalismo longe do projeto, que chama de UPP social e já chegou à Cidade de Deus e à Providência. Em dez dias, começa a fazer um mapa falante nas comunidades, para que os moradores digam quem são e do que precisam.

O que é UPP social e qual o grande o desafio do projeto?

RICARDO HENRIQUES: O primeiro passo é entender que a pacificação antecede a UPP social. Ela é pré-condição para uma política de cidadania, ou desenvolvimento social, nesses territórios. UPP social é um processo de coodenação e facilitação entre as necessidades dos territórios pacificados e as possibilidades de ação de governo, da sociedade civil e do setor privado. Há uma enorme fragilidade social nesses territórios. A gente precisa viabilizar o encontro dessas agendas.

Quando se fala em cidadania, as pessoas tendem a entender a palavra de forma abstrata. O que vocês querem levar para as comunidades pacificadas?

HENRIQUES: Não tenho nenhuma noção. Não quero idealizar que vamos transformar o território da UPP numa panaceia, no melhor dos mundos. Depois de 20, 30 anos de guerra, há uma dívida enorme. Precisamos fazer esses lugares chegarem a um padrão minimamente regular da cidade. Há gerações, jovens de 20, 25 anos, que não conhecem outra realidade. A missão é, a partir da UPP social, quebrar a ideia de apartação, de cidade partida do (jornalista) Zuenir (Ventura) e, até 2016 (a gente fixou uma data simbólica), ter uma cidade integrada. Mas isso não significa resolver todos os problemas. O marco de seis anos tem a ver com dois processos: o mapa da pacificação, até 2014, mais dois anos de intervalo e as Olimpíadas.

Depois de anos sem serviços essenciais, as reivindicações se restringem a temas emergenciais ou as pessoas têm clareza sobre outras necessidades?

HENRIQUES: Precisamos de uma escuta forte. Não é aquela coisa de democratismo banal, com todo mundo falando. É uma visão muito atenta, mas produtora de engajamento. Na primeira reunião do fórum na Cidade de Deus, com 120 pessoas, as principais demandas eram nas áreas de saúde e educação. Lá existem 12, 13 escolas, mas nenhuma de ensino médio. Os meninos e as meninas têm que ir para a Barra ou Jacarepaguá para estudar. Já na Providência, o mesmo exercício teve resultado totalmente diferente: a preocupação era sinalização para a entrada de veículos no morro. Quando fizemos os dez mapas etnográficos das comunidades ocupadas, vimos que há fragilidades comuns, mas percepções e demandas singulares.

Qual é o déficit de serviços?

HENRIQUES: Tem um padrão grande que é de déficit de serviços sociais básicos, água luz, lixo e esgoto. A questão da luz foi uma experiência interessante no Santa Marta. Estamos trabalhando junto com a Light, agora, na Providência. Está em discussão a forma de fazer a provisão de luz, a uma tarifa subsidiada, em que todo mundo passe a ser adimplente. Como havia o gato, a percepção é que os valores, mesmo subsidiados, são altos.

Como é administrar esta mudança cultural no padrão de consumo?

HENRIQUES: É tudo uma agenda de direitos e deveres. Uma das dimensões que mais explicam o processo de favelização e precarização é a informalidade. No PAC do Alemão, constatou-se que há mais ou menos sete mil estabelecimentos comerciais, 90% deles informais. Formalizar é fundamental, mas necessita de uma regra de transição. Caso contrário, eu quebro esta economia. No caso da luz, eu tenho que ter consciência de que a tarifa vai ser menor do que em outras áreas da cidade, mas será preciso aprender a consumir. Parte da classe média do Rio de Janeiro, durante o apagão, teve que mudar seu padrão de consumo. Qual o sentido de todo mundo ficar com o ar condicionado a mil, 24 horas por dia, com janela aberta? Mas esse aprendizado não vai acontecer em seis meses ou um ano. É precipitado para uma história de 20 anos.

E o gatonet?

HENRIQUES: Fizemos grandes inovações. Uma operadora passou a cobrar R$ 44,90 num pacote com 90, cem canais. É um programa focado exclusivamente nas UPPs. Não se trata de responsabilidade social, é negócio. O empresário quer entrar nos segmentos E, D e C. Já estamos com 600 assinaturas.

Não quero idealizar que vamos transformar o território da UPP numa panaceia, no melhor dos mundos. Depois de 20, 30 anos de guerra, há uma dívida enorme

No campo dos direitos, qual é a principal meta?

HENRIQUES: Uma questão fundamental é a formalização. Formalizar negócios. Estamos atuando com o Sebrae e a prefeitura, com o projeto Empresa Bacana. No primeiro dia na Cidade de Deus foram formalizados quase 200 negócios. Hoje já são 330 com alvará e CNPJ. Há uma estimativa, não oficial, de que lá existam 800 negócios. É só abrir o espaço para a formalização que as pessoas voluntariamente vão ao encontro disso. Além disso, quando a gente sai da guerra, depara-se com déficits civis, além dos econômicos e sociais. Não há um sistema de regras. Esses lugares estavam sem República. Oscilavam entre um Estado totalmente autoritário ou a anarquia. Era a anarquia do "dane-se, vire-se" ou autoritarismo que, como um juiz, decidia as punições. Há casos de brigas de casal em que as mulheres eram obrigadas a raspar a cabeça por ordem do tráfico ou da milícia.

A questão dos direitos e deveres se aplica não se aplica à questão do baile funk?

HENRIQUES: A República tem que levar um sistema de regras e leis que vão desde a oferta de serviços básicos até questões sobre o limite do som, e o ícone disso são os bailes funks. Quem decide? Quem arbitra as regras? Só o jovem ou os avós e as crianças também? O policial da UPP tem voz nisso ou não? No Tabajaras, depois de intensa discussão, já foram realizados três bailes. Entendemos que se criminalizou o baile funk de forma arbitrária. O tráfico se apropriou desta linguagem, mas não faz nenhum sentido a proibição. Esta posição está consensuada entre a área social e da segurança. A gente usa uma expressão chave, que é "vamos combinar". Vamos combinar qual é a responsabilidade do governo, do morador e do setor privado? Estamos acordados, combinados? Então, vamos fazer.

Como se criam as condições para se estabelecer estas regras?

HENRIQUES: As regras têm que ter uma enorme capacidade de bom senso. Se, além do alvará e do CNPJ, por exemplo, eu entrar nas empresas com avaliação de vigilância sanitária, que não passa nem no Leblon, eu não vou estar formalizando, mas quebrando os negócios. É uma transição. Ao mesmo tempo, só formalizando teremos uma integração real com a cidade. No Chapéu Mangueira e na Babilônia, os próprios moradores propuseram a criação do "Alto Leme". Se você formaliza negócios e estimula o turismo ecológico e gastronômico no Chapéu Mangueira, que tem uma das vistas mais interessantes do mundo, de onde você vê a Praia do Leme, o Morro da Urca todo e o bondinho, por que a juventude do Rio de Janeiro não iria até lá?

Os jovens são um problema ainda mais delicado, devido à herança do tráfico. Qual será a abordagem?

HENRIQUES: Os donos do morro foram embora, mas ficou o jovem que estava na endolação, que ia para a escola e tirava uma grana enrolando baseado. Precisamos ter um projeto sedutor para ele, que vivia numa rede de poder perverso. Era quem carregava o fuzil que ficava com a menina mais bonita do morro. A juventude desses locais tem um perfil curioso. O jovem tem grandes fragilidades, como baixíssima escolaridade, mas uma grande capacidade de iniciativa, de trabalhar em equipe e de fazer que os outros trabalhem, tudo o que o mercado de trabalho valoriza hoje. E aprenderam tudo isso no mundo do tráfico, da ilegalidade. Além da mediação de conflitos, a Casa da Justiça, que também vai começar em breve, vai focar no potencial desses jovens.

Tem gente que acha que a UPP social demorou a acontecer, que poderia ter sido criada simultaneamente ao projeto de pacificação.

HENRIQUES: Eu penso que era um processo de aprendizado. O secretário (de Segurança, José Mariano) Beltrame foi percebendo que os jovens capitães, que estão à frente das UPPs, começaram a ficar sobrecarregados com demandas que nada tinham a ver com a segurança.

Como são constituídas as equipes da UPP social?

HENRIQUES: Cada favela tem um coordenador, três assistentes e dez jovens universitários. A nossa verba é mais para pessoal. Ser leve é fundamental. Se eu produzir uma burocracia, se precisar de um prédio, equipamentos e de um guichê, o negócio se torna inviável.

Quando a UPP social estará em todas as favelas pacificadas?

HENRIQUES: Meu sistema de gestão está se expandindo. A meta é estar plenamente em dez comunidades com UPPs até o final do ano. Hoje estamos com a equipe completa na Cidade de Deus, na Providência e, em breve, estaremos no Borel.

O secretário de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos, Ricardo Henriques, dá entrevista em seu gabinete sobre as UPPs Sociais - Foto de André Teixeira / Agência O Globo

Como medir a eficácia do projeto?

HENRIQUES: Criamos recentemente a Câmara de Gestão Municipal da UPP Social, porque há uma forte agenda pública da prefeitura. Também estamos formatando um conjunto de indicadores que vai dizer qual é o salto que estamos dando e em que estágio a gente está na provisão de serviços. A UPP social é transitória. Ela tende a acabar quando a gente sair da condição extraordinária de guerra para uma situação regular de integração com a cidade.

Quais são as novidades que vêm pela frente?

HENRIQUES: Dentro de dez dias, vamos começar a fazer o mapa falante, em parceria com uma ONG. Vamos para cada comunidade levantar a estrutura disponível e a oferta de serviços públicos. A ideia é saber coisas como os trajetos das pessoas, os equipamentos disponíveis, quais são as áreas de socialização e até por onde os jovens andam, a taxa de incidência de doenças. Chamamos de mapa falante porque você capta as informações a partir da própria narrativa dos moradores, que vão construir a cartografia do local.

Já imaginou quanto tempo levará até reverter o quadro social das favelas do Rio que eram dominadas pelo tráfico?

HENRIQUES: Seria muito leviano dar um chute. É muito interessante, depois de dois meses, ver como as coisas estão andando muito mais rápido do que o esperado. O domínio da guerra submeteu as pessoas, inclusive seus horizontes temporais. Os jovens, com a possibilidade concreta de morte, tinham as expectativas muito reduzidas, presentificadas. O que cria um grande otimismo é ver que o represamento todo da guerra criou uma enorme dor e fragilidade, mas o oxigênio reposicionou o cenário. A vontade de viver uma vida de qualidade é maior. E, na medida que a UPP começou, o discurso da classe média do Rio também mudou. Se havia ceticismo e fatalismo, hoje todos querem cooperar. A responsabilidade do Estado é ainda maior. A ausência era decorrência da guerra e, com o fim dela, esta ausência fica nua. Não dá para ficar na pauta antiga do século 20, precisamos ir rapidamente para o século 21. Precisamos ser eficientes e coordenados. Chega da antiga amarra patrimonialista, politiqueira e cheia de bolor.