quinta-feira, 28 de outubro de 2010

MPF/PB Nota contra a Intolerância Religiosa



"A raça negra foi a primogénita de todas as raças no percurso da civilização; é a ela que se deve o primeiro brilho do pensamento, o primeiro despertar da inteligência na espécie humana."
Cheik Anta Diop

Quarta, 27 de Outubro de 2010 - 19h34

MPF divulga nota de repúdio contra intolerância religiosa e racismo na PB

http://www.portalcorreio.com.br/noticias/matLer.asp?newsId=156622

O Ministério Público Federal (MPF), através da Procuradoria Regional Eleitoral na Paraíba (PR/PB) e da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), divulgou, na tarde desta qurta-feira (27), nota de repúdio a manifestações de intolerância religiosa e racismo praticados em relação às religiões de matriz africana, durante o segundo turno das eleições 2010.

A nota presta também solidariedade aos ativistas na luta antirracista e que compõem grupos, núcleos, articulações e organizações negras na Paraíba, bem como o respeito aos praticantes das religiões de matriz africana e foi elaborada a partir das manifestações das entidades Federação Cultural Paraibana de Umbanda, Camdomblé e Jurema (Fcpumcanju), Articulação da Juventude Negra – Paraíba, Organização de Mulheres Negras na Paraíba (Bamidelê), Federação Independente de Cultos Afrobrasileiros do Estado da Paraíba, (Ficab), Instituto de Referência Étnica (IRE), Movimento Negro Organizado da Paraíba (MNO-PB), Núcleo de Estudantes Negras e Negros da UFPB (NENN), Rede de Mulheres de Terreiros, Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Intecab), Casa de Cultura Ilê Axé Omi Dewá, Centro de Referência dos Direitos Humanos (CRDH) e Ilê Tatá do Axé e Casa de Cultura Ilê Ase D'osoguia (IAO).


Conforme o procurador regional eleitoral Werton Magalhães Costa, essas manifestações indicam que há ainda muito a fazer contra a discriminação, de qualquer tipo, especialmente quando percebemos sua ocorrência em função do momento democrático que vivenciamos.

O procurador regional dos direitos do cidadão Duciran Van Marsen Farena lamenta que recursos dessa natureza ainda sejam utilizados em campanhas eleitorais, de forma clandestina. "Em respeito à diversidade cultural e à tolerância, todas as candidaturas deveriam repudiar estes expedientes, e não só aquela vítima das identificações negativas. Essa campanha oculta reforça os estereótipos criados para inferiorizar minorias étnicas, afrontando a Constituição Federal, cujo propósito é a criação de uma sociedade justa, igualitária e sem discriminação".


Confira a íntegra da nota abaixo:


'Nota de Repúdio


O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL (MPF), através da Procuradoria Regional Eleitoral na Paraíba (PR/PB) e da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), vem a público repudiar manifestações de intolerância religiosa e racismo praticados no Estado, em relação às religiões de matriz africana, durante o segundo turno das eleições 2010.

Recentemente, circularam na Paraíba diversos materiais anônimos (em veículos de comunicação e espaços comunitários) desqualificando e desrespeitando as religiões de matriz africana, com a divulgação de imagens de pessoas associando-as ao culto de entidades demoníacas.


Expedientes dessa natureza distorcem a importância histórica e cultural das religiosidades negras, dos Babalorixás e Ialorixás, os quais são considerados guardiões e guardiãs da memória de povos africanos escravizados no Brasil. Cumpre ressaltar que 63% da população paraibana e mais de 50% do povo brasileiro é composto por negros e negras.

Além disso, tais manifestações tentam impor uma visão errônea de que a religião dos orixás é falsa, satânica e com prática restrita à população negra, difundindo, portanto, uma postura intolerante, discriminatória e racista, o que é inadmissível.

Investigações estão em curso para identificar os envolvidos na autoria e difusão desses materiais. O Ministério Público Federal solidariza-se com os ativistas na luta antirracista e que compõem grupos, núcleos, articulações e organizações negras na Paraíba, exigindo o respeito aos praticantes das religiões de matriz africana.


João Pessoa, 27 de outubro de 2010

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Procuradoria Regional Eleitoral
Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão
'

Do MPFPB
 


 





Ações do documento 27/OUT/2010 - Direitos Humanos forma a 1ª turma de policiais da Força Nacional para atuar no Programa de Proteção aos Defensores, nesta 5ª feira (28)


 
 

27/OUT/2010 - Direitos Humanos forma a 1ª turma de policiais da Força Nacional para atuar no Programa de Proteção aos Defensores, nesta 5ª feira (28)

Data: 27/10/2010

Com a presença do ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), será realizada nesta quinta-feira (28), às 9 horas, em Brasília (DF), a cerimônia de encerramento do 1º Curso de Formação de Policiais Militares para apoio ao Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. Liderado pela SDH/PR. O treinamento é resultado de parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), do Ministério da Justiça, e com a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF).

Além do ministro Vannuchi, a cerimônia terá a presença do secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri; do comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal, coronel Luiz Renato Fernando Rodrigues; do coordenador-geral do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, Ivan Marques; e do diretor de Defesa dos Direitos Humanos da SDH, Fernando Matos, que fará a entrega dos certificados aos participantes. Matos representará a secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos da SDH, Lena Peres.

O objetivo do curso de Formação de Policiais Militares para apoio ao Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos é treinar policiais em técnicas de proteção a pessoas ameaçadas, com foco em direitos humanos. Eles integrarão a Força Nacional de Segurança e poderão atuar em todo o território nacional.

Segundo o diretor de Defesa dos Direitos Humanos da SDH, Fernando Matos, "as aulas possibilitaram domínio completo da proteção necessária aos defensores de Direitos Humanos. Acredito que a SDH fechou um ciclo importante na formação desses policiais", afirma.

"Ao longo do curso, os policiais mudaram a visão que tinham sobre Direitos Humanos", avalia o coordenador-geral do programa de proteção, Ivan Marques. "Antes considerados baderneiros, agora os defensores são vistos como pessoas comuns, como os policiais, que estão lutando por um direito fundamental, por justiça. Isso gera uma motivação muito importante para quem vai proteger essas pessoas", afirma.

Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos – Criado em 2004, sob coordenação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Atualmente, encontra-se implantado em seis estados conveniados: Pará, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Brasil é o único país do mundo a ter um programa de proteção a defensores de Direitos Humanos institucionalizado. 

Encerramento do 1º Curso de Formação de Policiais Militares para apoio ao Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos
Data: 28 de outubro de 2010
Horário: 9 horas
Local: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, 10º andar. Setor Comercial Sul - B, Quadra 9, Lote C, Edificio Parque Cidade Corporate, Torre "A", Brasília (DF)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Processo sobre assassinato de ativista de direitos humanos é federalizado


Processo sobre assassinato de ativista de direitos humanos é federalizado

Por Redação. - 18:31:00 - 26 Views






Brasília (Agência Brasil) – O processo sobre o assassinato do advogado e defensor dos direitos humanos Manoel Mattos, assassinado em 2009 na Paraíba, foi o primeiro a ser federalizado no país. Por 5 votos a 2, os ministros da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiram hoje (27) que a apuração do crime e do envolvimento dos cinco suspeitos deve ocorrer na Justiça Federal da Paraíba.

Os ministros também concordaram que outros crimes correlatos ao assassinato de Manoel Mattos, ou seja, atribuídos a grupos de extermínio na divisa entre Pernambuco e a Paraíba, também serão investigados e julgados pela Justiça Federal. Além disso, um comunicado sobre a decisão da corte será enviado ao Ministério da Justiça e às corregedorias de Pernambuco e da Paraíba.

Segundo o diretor da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Fernando Matos, após a federalização, o Ministério Público, a Procuradoria da República da Paraíba e o juiz federal responsável pelo caso vão decidir se haverá novas audiências e coleta de novas provas. "Como o voto dos ministros permite que, além do caso Manoel Mattos, outros casos conexos sejam levados à Justiça Federal, podemos ter uma ampliação de pessoas e fatos a serem investigados".

O diretor afirmou que o processo de articulação entre entidades da sociedade civil, o governo e a Justiça durou um ano. "Envolveu a Secretaria de Direitos Humanos, o Ministério da Justiça, a sociedade civil, os governos de Pernambuco e da Paraíba, os Ministérios Públicos estaduais e a Secretaria de Segurança Pública".

Para a diretora da organização não governamental Justiça Global, Andressa Caldas, a decisão do STJ é "uma conquista histórica do movimento dos direitos humanos". Segundo ela, a possibilidade de federalizar crimes de violação dos direitos humanos está prevista na Constituição desde 2004 e nunca foi colocada em prática.

De acordo com Andressa, a decisão da corte abre um novo capítulo na história do país, pois vai punir os executores dos crimes e os mandantes que financiam os grupos de extermínio no país. " O julgamento de hoje vai mudar os rumos e dá uma esperança muito grande para quem milita no campo de defesa dos direitos humanos. Estamos muito confiantes que essa investigação vai levar à condenação não só de quem matou Manoel Mattos como quem mandou matar [o advogado]".

A mãe de Manoel Mattos, Nair Ávila, passou mal durante o julgamento e foi atendida por uma equipe médica do STJ. Após a decisão, ela comemorou e se emocionou: "Foi um ano e nove meses de muito sofrimento, mas estou muito feliz por ter alcançado essa vitória. O meu filho entrou para a história. Ele era uma pessoa especial e só fazia o bem, por isso tem de receber o bem. Quero que as pessoas que fizeram isso com ele sejam punidas".

Para o secretário executivo da Secretaria de Direitos Humanos, Rogério Sotilli, o julgamento de hoje representa uma grande vitória. Segundo ele, o Brasil vai enfrentar as violações de direitos humanos de outra forma e os crimes serão investigados até o fim. Além disso, o país também ganhará reconhecimento internacional.

"É a primeira federalização da história e um compromisso do governo federal em adotar a federalização em casos gravíssimos de violação dos direitos humanos. Pela primeira vez, o STJ acata o pedido da Procuradoria-Geral da República justamente no ano em que os Direitos Humanos foram tão debatidos."


Grave violação a direitos humanos leva STJ a federalizar caso Manoel Mattos


DECISÃO
Grave violação a direitos humanos leva STJ a federalizar caso Manoel Mattos
Por maioria de votos, a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) acolheu o pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o crime contra o ex-vereador Manoel Mattos seja processado pela Justiça federal. O caso fica agora sob responsabilidade da Justiça federal da Paraíba. É a primeira vez que o instituto do deslocamento é aplicado.

A ministra Laurita Vaz, relatora, acolheu algumas propostas de alteração do voto para melhor definição do alcance do deslocamento. Entre as principais propostas, está a alteração da Seção Judiciária a que seria atribuída a competência. Inicialmente, a relatora propôs que a competência se deslocasse para a Justiça federal de Pernambuco, mas prevaleceu o entendimento de que o caso deveria ser processado pela Justiça federal competente para o local do fato principal, isto é, o homicídio de Manoel Mattos.

Outros casos conexos também ficarão a cargo da Justiça federal, mas a Seção não acolheu o pedido da PGR de que outras investigações, abstratamente vinculadas, também fossem deslocadas para as instituições federais.

A relatora também acolheu proposta de modificação para que informações sobre condutas irregularidades de autoridades locais sejam comunicadas às corregedorias de cada órgão, em vez de serem repassadas para os conselhos nacionais do Ministério Público (CNMP) e de Justiça (CNJ).

Com os ajustes, acompanharam a relatora os ministros Napoleão Maia Filho, Og Fernandes e o desembargador convocado Haroldo Rodrigues. Votaram contra o deslocamento o ministro Jorge Mussi e os desembargadores convocados Celso Limongi e Honildo de Mello Castro. A ministra Maria Thereza de Assis Moura presidiu o julgamento, e só votaria em caso de empate. O ministro Gilson Dipp ocupava o cargo de corregedor Nacional de Justiça à época e não participou do início do julgamento.

Esta foi a segunda vez que o STJ analisou pedido de deslocamento de competência, possibilidade criada pela Emenda Constitucional nº 45/2004 (reforma do Judiciário), para hipóteses de grave violação de direitos humanos. O IDC nº 1 tratou do caso da missionária Dorothy Stang, assassinada no Pará, em 2005. Naquela ocasião, o pedido de deslocamento foi negado pelo STJ.

http://www.stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=99620

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Comitê escolhe prioridades do PNDH 3 para implantação


Comitê escolhe prioridades do PNDH 3 para implantação
Agência Brasil

BRASÍLIA – Até o dia 10 de dezembro, o comitê de acompanhamento e monitoramento do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH), formado por 21 ministérios, deverá fechar o plano de ação de direitos humanos para os próximos dois anos que deverá ser implantado pelo novo governo.

A elaboração do plano de ação pelo comitê está prevista no Decreto 7.037 (de dezembro de 2009) que lançou a terceira edição do PNDH. Para 2011, as ações terão previsão no Orçamento da União.

Segundo a secretária de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Lena Peres, o plano deverá prever a criação de um sistema de informações ligando todas as unidades da Federação sobre crimes de direitos humanos (contra homossexuais e moradores de rua, por exemplo). "As pessoas precisam ver os dados de direitos humanos aferidos de uma forma completamente adequada, e isso deve entrar no sistema de informações dos estados e municípios."

O plano ainda envolverá ações de atenção, como a criação de escritórios para articulação da rede de serviços em direitos humanos, o atendimento à saúde, acesso à educação e moradia e a promoção do trabalho. Já há um projeto piloto de escritório em funcionamento no estado do Rio de Janeiro.

Além disso, o comitê pretende priorizar a criação do Conselho Nacional de Direitos Humanos em substituição ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) que surgiu no governo João Goulart, em março de 1964, e foi implementado durante a ditadura militar (1964-1985).

Para Lena Peres, o CDDPH tem uma forma de representação muita antiga o que "faz com que a sociedade civil não se veja dentro do conselho". Um projeto de lei sobre o novo conselho já tramita no Congresso Nacional há cerca de 16 anos.

De acordo com a secretária, o aborto não está na versão preliminar do plano bienal em discussão no comitê. De acordo com Lena Peres, o tema não entrou "porque tem ações muito mais macro, que precisam ser estruturadas em relação à mulher e a mortalidade materna", salientou.

A menção à descriminalização do aborto, descrita na versão original do PNDH 3, foi alvo de críticas da Igreja Católica. O assunto tem sido explorado durante a campanha eleitoral. O aborto é a quinta causa de mortalidade materna no Brasil. E a diminuição desse tipo de morte é a única meta do milênio que o Brasil não conseguirá cumprir. As Metas do Milênio são compromissos firmados por 180 países nas Nações Unidas.

De acordo com os cálculos de Lena Peres, das 519 ações do PNDH 3, 31 já estão executadas (cerca de 6%). A maioria das ações do programa (399) competem ao Poder Executivo federal. O PNDH foi estabelecido para uma década.


Após dez anos e 200 execuções…


Após dez anos e 200 execuções…

STJ decidirá se federaliza as investigações contra grupo de extermínio

O superior Tribunal de Justiça (STJ) deverá retomar, na quarta-feira 27, o julgamento do pedido de federalização dos processos que investigam a atuação de um grupo de extermínio na divisa entre Paraíba e Pernambuco. De acordo com organizações civis que acompanham a situação na chamada "fronteira do medo", este esquadrão, integrado por policiais, seria responsável por ao menos 200 mortes nos últimos dez anos, incluindo a do advogado e vereador do município de Itambé (PE) Manuel Mattos, executado no litoral da Paraíba em janeiro do ano passado.

Reconhecido defensor dos direitos humanos, Mattos denunciava os crimes na região e passou a sofrer ameaças. Chegou a ter proteção de agentes da Polícia Federal, graças a uma recomendação feita pela Organização dos Estados Americanos (OEA) em 2002, mas passou os últimos dois anos de sua vida sem a escolta, interrompida pelo governo. Em 8 de setembro, o STJ iniciou o julgamento do pedido de federalização com o voto favorável da ministra relatora Laurita Vaz. A audiência acabou suspensa graças ao pedido de vistas de Celso Limongi.

Com a federalização, a competência dos processos de investigação e de julgamento é deslocada da esfera local para a federal. O instrumento, conhecido pela sigla IDC (Incidente de Deslocamento de Competência), foi criado em 2004, durante a reforma do Judiciário. É previsto apenas nos casos de grave violação aos direitos humanos e na qual se comprova a omissão dos órgãos estaduais na punição aos responsáveis. Há cinco anos, o mesmo tipo de recurso foi avaliado pelo STJ no caso do assassinato da irmã Dorothy Stang, mas foi julgado improcedente. A morte de Mattos constitui o segundo pedido de IDC avaliado no País.

No pedido formulado pelo então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, e apresentado à Corte em junho de 2009, é requisitada a efetiva investigação dos agentes de segurança pública estaduais suspeitos de participar ou de serem complacentes com o grupo de extermínio. Também solicita a apuração da possível omissão de promotores e juízes na apuração.

Na avaliação da advogada Andressa Caldas, diretora da ONG Justiça Global, que propôs à Procuradoria-Geral da República a federalização desses casos, há muita resistência no Judiciário em autorizar o deslocamento de competência. "Muitos juízes entendem que isso seria um reconhecimento da incompetência da Justiça estadual e, assim, poderiam expor os colegas, mas não é caso. Muitos promotores cumprem o seu papel de fiscalização e esbarram nas deficiências do aparato policial local ou passam a sofrer ameaças. O IDC serve, inclusive, para proteger eses agentes estaduais de eventuais pressões."

Como exemplo ela cita o caso da promotora Rosemary Souto Mayor, da comarca de Itambé (PE), que passou a ser ameaçada após investigar a atuação do grupo de extermínio. A OEA recomendou que ela passasse a contar com escolta policial. "O problema é que essa proteção é feita, hoje, por policiais militares, o que consideramos inadequado, tendo em vista que o grupo de extermínio é integrado por colegas de farda. O ideal seria uma proteção da Polícia Federal, que não tem envolvimento no caso."

Em entrevista ao Correio Brasiliense, em setembro deste ano, a promotora confirmou que, em grande medida, a omissão estatal se deve à intimidação. "As pessoas têm medo de sofrer represálias e até mesmo de serem mortas ao investigar."

Mais do que garantir a investigação da morte de Mattos e de outros 200 na fronteira do medo, boa parte delas sem a instauração de um inquérito policial para investigar a autoria, diversas entidades civis torcem para que a federalização seja referendada pelo STJ e possa ser aplicada em outros assassinatos. Objetivo: impedir a vitória da impunidade. Como afirmou o procurador da República Ubiratan Cazetta, em artigo publicado no site de CartaCapital recentemente, a União deve "assumir o papel de promoção dos direitos humanos e acabar com as desculpas na demora, na ineficiência, na falta de estrutura".

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Questão agrária: “O que está em jogo é a disputa de concepção de mundo”



22/10/2010

Questão agrária: "O que está em jogo é a disputa de concepção de mundo"


Entrevista

A região Nordeste chega a concentrar cerca de 50% do campesinato do país. É sob esta região que o professor da Universidade do Ceará e colaborador da CPT no estado, José Levi Sampaio, analisa os desafios da luta pela terra, em entrevista à Comissão Pastoral da Terra – Regional NE II, durante o II Seminário Nacional do Laboratório de Estudos sobre Espaço e Cultura, realizado entre os dias 27 e 30 de setembro, na UFPE. O professor ressalta que "para resolver a questão agrária, nós precisamos, além da Reforma Agrária, fortalecer os processos culturais, dentre eles, os saberes locais, entendendo como se constroem o conhecimento da realidade das comunidades".

Neste contexto, o professor afirma a importância de que as organizações e movimentos sociais aprodunfem a discussão sobre outros elementos, como a questão da água e da luta pelos "direito ao trabalho, à cidadania, direito de participar, interferir, de agir politicamente para que os cidadãos envolvidos em todas essas lutas de que estamos falando sejam cada vez mais fortes". E finaliza: "Temos dois mundos em disputa constante e ininterrupta e nós precisamos fortalecer aqueles que estão buscando, não os recursos como forma de enriquecimento, de ampliação da riqueza, mas a melhoria da qualidade de vida, da saúde, da educação, da cultura."


Confira abaixo a entrevista:

CPT NE II - O Nordeste é a região do pais que concentra cerca de 50% do campesinato do país. Como o senhor vê a questão da luta pela terra, pela Reforma Agrária nesta região, considerando também os outros tantos elementos que não apenas a conquista pela terra, como a educação do campo, a cultura camponesa etc.?

José Levi - 
Quando falamos da questão agrária vem de imediato em nossa cabeça a Reforma Agrária. A Reforma Agrária é um dos pontos centrais da questão agrária nacional. Mas para resolver essa problemática, nós precisamos, além da Reforma Agrária, fortalecer os processos culturais, dentre eles, os saberes locais, entendendo como se constroem o conhecimento da realidade das comunidades. Ao mesmo tempo, também precisamos fortalecer os processos de educação formal, que ela venha com outro caráter, na perspectiva de educação do campo. Precisamos valorizar o que existe e criar novos valores, porque não somos estáticos no tempo, a sociedade muda, a comunidade muda, as tecnologias mudam e precisamos acompanhar esses novos processos, com nova mentalidade. Temos que interferir nos processos técnicos, porque as técnicas têm o poder de interferir nos processos produtivos e geram hoje uma produtividade voltada para o mercado.

Os que fortalecem a luta pela terra defendem que a técnica seja voltada para atender as necessidades básicas da Soberania Alimentar da população, não só para comunidade em si, mas para o mundo. É nesta perspectiva que a Reforma Agrária deve vir. Além da Terra, precisamos também aprofundar a discussão sobre outros elementos, como a água. Sem a água não podemos produzir nada, não teremos vida. A biodiversidade sem água não existe, precisamos discutir o direito ao acesso à água e garanti-la para todas as comunidades. Outra luta que precisamos enfrentar é a luta pelos Direitos. Direito ao trabalho, à cidadania, direito de participar, interferir, de agir politicamente para que os cidadãos envolvidos em todas essas lutas de que estamos falando sejam cada vez mais fortes. Se nós não tivermos esse conjunto de forças atuando não teremos a Reforma Agrária.


Feito essas colocações, verificamos que no Nordeste, a luta tem sido continua, tanto na CPT, quanto em outras organizações que contribuem com os movimentos sociais que atuam na região. Sendo que estes, por vezes, ocorrem e atuam de forma fragmentada, dando a impressão de fragilidade, no entanto, as redes sociais na atualidade conseguem fazer boa interação entre as diversas manifestações na região. Cabe salientar que a unidade das lutas regionais necessita de maior costura política. Vejo, portanto que a Reforma Agrária no Nordeste e outras regiões do país não se dará apenas distribuído a terra concentrada, como afirmamos acima.

CPT NE II - O senhor não acha que isso está muito mais claro agora do que há certo tempo atrás? Em muitos momentos a luta pela terra, a questão do direito à terra foi vista apenas pelo fator econômico, da produção. Os trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo no Nordeste, ensinaram a ver a terra com outro olhar, não é o olhar apenas econômico...

José Levi - 
A realidade é muito rica e o convívio, o relacionamento que vamos estabelecendo com as comunidades, na troca de saberes, nos faz perceber o quanto temos que fortalecer a perspectiva de que as frentes de luta nascem é no seio dos trabalhadores e das trabalhadoras. Nascem, sobretudo, dos que se encontram no campo, porque são aqueles que não têm, que lutam e necessitam da Terra, Água, de Direitos. São também novos elementos, conceitos, lutas que estão aparecendo e temos que dar conta deles, como  o meio ambiente, que está constantemente em pauta na atualidade, a questão da transgenia, o próprio conceito da agroecologia, que surge recentemente no seio da questão agrária e que aparece agora politicamente definido como uma frente de luta, principalmente pela questão da Soberania Alimentar.

CPT NE II - Então é esta disputa de lógica de conceber o campo que se situa a questão agrária. De um lado o território do capital que expropria tudo, tanto as pessoas quanto a terra e os recursos naturais. De outro lado, tem um outra forma de vida que é oposto a lógica do capital...

José Levi - 
É a disputa de concepção de mundo, de como viver no mundo, de como utilizar seus recursos. Temos esses dois mundos em disputa constante e ininterrupta e nós precisamos fortalecer aqueles que estão buscando, não os recursos como forma de enriquecimento, de ampliação da riqueza, mas a melhoria da qualidade de vida, da saúde, da educação, da cultura. Valorizando e fortalecendo aquelas permanências culturais que estão na ativa no campo, para que venham com mais força, se contrapondo ao modelo dominante que é   o do agronegócio.

 

Entrevista realizada pela Comissão Pastoral da Terra - Regional Nordeste II

* José Levi Furtado Sampaio é doutor e professor de Geografia da Universidade Federal do Ceará e colaborador da CPT.