quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Ministro Vannuchi e representante da ONU abrem seminário internacional do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos


Ministro Vannuchi e representante das Nações Unidas abrem seminário internacional do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, em Brasília (DF)

"Este seminário deve ser um momento para reflexão, troca de experiências e definição dos próximos passos", afirmou o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), na abertura do 1º Seminário Internacional do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, que começou na noite de ontem  (17), em Brasília (DF). A relatora especial das Nações Unidas para a Situação dos Defensores dos Direitos Humanos, Margaret Sekaggya, participou da mesa de abertura.
Vannuchi afirmou que a atual situação de ameaças contra os defensores no Brasil é resultado, em grande parte, do extermínio de 5 milhões de indígenas que viviam aqui há 500 anos e da escravização e tortura de algo entre 5 e 8 milhões de africanos. "Durante séculos a economia foi sustentada pelo trabalho escravo. Além disso, o Brasil passou por duas ditaduras no século 20", explicou.
Em relação ao Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, liderado pela SDH, o ministro ressaltou sua ampliação – em cinco anos dobrou sua presença no país, passando de três para seis estados – e a parceria com a Força Nacional de Segurança, que até o final do ano disponibilizará 60 policiais, capacitados em Direitos Humanos, para o programa. "Nosso objetivo é garantir que os defensores de Direitos Humanos continuem com suas atividades porque muitas vezes é isso que garante a sobrevivência de dezenas, centenas de pessoas", disse.
A relatora das Nações Unidas para a Situação dos Defensores dos Direitos Humanos saudou o governo brasileiro pelas Políticas Públicas de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, mas ressaltou que ainda é preciso avançar. "Apesar dos passos que já foram dados, é ainda necessário avançar no contexto brasileiro, assim como em muitos países do mundo, onde infelizmente defensores ainda são ameaçados, torturados e até considerados terroristas", disse Sekaggya.
A secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Lena Peres, e o diretor de Defesa dos Direitos Humanos, Fernando Matos, da SDH/PR, participaram da cerimônia de abertura.
De acordo com o coordenador-geral do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, Ivan Marques, o objetivo do encontro é planejar as ações do ano que vem. "Além da troca de experiência, queremos traçar as diretrizes para a condução do programa no próximo ano", afirma.
A abertura do seminário contou com a presença de aproximadamente 200 pessoas, entre representantes do governo federal, de governos estaduais, de organizações que atuam na área, nacionais e internacionais, como Frontline e Piece Brigades. Também participaram defensores de Direitos Humanos, como o pescador carioca Alexandre Anderson, diretor da Associação Homens do Mar da Baía de Guanabara (AHOMAR). Sob proteção do programa, ele elogiou a atuação do governo federal. "O Programa de Proteção a Defensores é a principal razão de eu ainda estar vivo", diz ele, que passou a ser ameaçado após denunciar a poluição ao meio-ambiente provocada por empresas que atuam na Baía de Guanabara.
Também participaram da mesa de abertura do seminário a diretora do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores, Gláucia Gauch; e o advogado e militante dos Direitos Humanos Darci Frigo, representando a sociedade civil.
Até amanhã (19), os participantes do seminário vão discutir, entre outros temas, a criminalização de defensores de direitos humanos e movimentos sociais, além do Sistema de Segurança, de Justiça e as Redes de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.
O 1º Seminário Internacional do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos está sendo realizado em Brasília, no Hotel Nobile Lake Side. Veja aqui a programação completa.
Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos – Criado em 2004, sob coordenação da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Atualmente, encontra-se implantado em seis estados conveniados: Pará, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Brasil é o único país do mundo a ter um programa de proteção a defensores de Direitos Humanos institucionalizado.

Nota da ABONG sobre fim da CPI das ONGs


Nota sobre fim da CPI das ONGs

17/11/2010

Sem alarde e com pouca repercussão na mídia, foi encerrada na segunda-feira, dia 1º de novembro, a CPI das ONGs. Após ter sido prorrogada por quatro vezes, terminou por falta de pedidos de mais uma prorrogação.

 

Ao contrário da intensa cobertura que a CPI recebeu quando foi instalada, seu fim não mereceu muito destaque. Muito provavelmente porque a conclusão a que chegou seu relatório, que não encontrou indícios de irregularidades em repasses feitos à organizações ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, principal alvo da CPI, não foi considerada midiática.

 

A ABONG se posicionou de forma contrária à CPI desde seu início, pois enxergamos nela mais uma tentativa de criminalização de movimentos sociais e organizações que, associadas ou não aos movimentos, lutam por transformações profundas na sociedade brasileira. Essas entidades incomodam profundamente os setores conservadores de nosso país, que buscam deslegitimar seu trabalho e difamá-las de forma recorrente. Infelizmente, a CPI das ONGs nada tem a ver com uma tentativa de controle social ou de intensificação de instrumentos de transparência, o que também defendemos.

 

Tratou-se de mais uma investida contra organizações que batem de frente com os interesses políticos e econômicos de alguns grupos. O desinteresse da imprensa comercial pelos resultados da CPI é mais uma evidência de que a instalação desta comissão teve como objetivo principal a perseguição política.

 

Acreditamos que a constituição de um marco legal para as organizações da sociedade civil é um passo fundamental para estabelecer a transparência nas relações com o Estado e o acesso a recursos públicos. Esta sim é uma forma de garantir que organizações sérias, que atuam de forma legítima e socialmente referendada, possam continuar com seu trabalho pela efetivação de direitos e pelo fortalecimento da democracia.

Brasil tem 60 mil homicídios sem solução


Brasil tem 60 mil homicídios sem solução

Paraná, Espírito Santo e Rio possuem o maior número de investigações em aberto; meta é encerrá-las até julho de 2011

Jailton de Carvalho

O retrato da impunidade ganhou contornos ainda mais dramáticos com levantamento do Conselho Nacional do Ministério Público divulgado ontem. Pelo estudo, as polícias civis acumulam pelo menos 60 mil inquéritos sobre homicídios abertos até dezembro de 2007 e, até o momento, não concluídos.

São casos de assassinatos, crime mais grave previsto no Código Penal, em que os autores não foram devidamente identificados e, por isso, permanecem sem qualquer punição.

As pilhas de inquéritos sem solução são maiores no Paraná, com 9.281 casos; no Espírito Santo, com 8.893; e no Rio de Janeiro, com 8.524. Entre os cinco primeiros da ineficiência estão ainda a Bahia, com 6.903 inquéritos em aberto, e Minas Gerais, com mais de 5.419 assassinatos não esclarecidos.

O quadro da violência e da impunidade pode ser ainda mais grave. Seis estados e o Distrito Federal não repassaram informações para o levantamento. Alguns estados encaminharam dados parciais.

Esta é a primeira vez em que uma instituição brasileira faz e divulga os resultados sobre assassinatos não esclarecidos. Os números, até então inéditos, deixaram impressionadas até autoridades acostumadas a lidar com a questão da violência e da impunidade no país.



quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entre feitos e dilemas, proteção a testemunha chega a 15 anos no país

Provita promove reinserção social de pessoas que cooperam com a Justiça.


Baseado na ação de ONGs, modelo brasileiro é alvo de questionamentos.

Do G1, em São Paulo



O Programa de Assistência a Vítimas e a Testemunhas Ameaçadas (Provita), importante instrumento de combate ao crime organizado no país, completa 15 anos em meio a problemas e questionamentos sobre o modelo de proteção adotado no Brasil.



Entre os gargalos que persistem estão a descontinuidade no repasse de recursos públicos às ONGs que executam o programa, a lentidão da Justiça para julgar processos com testemunhas protegidas e dificuldades na reinserção social dos usuários.



Quem soou o último alerta foi a própria ONG fundadora do programa, o Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), de Pernambuco.



Se prestamos algum serviço, fazemos ajudando a colocar na cadeia o ladrão de galinha"Jayme Benvenuto membro do Gajop, ONG fundadora do Provita. Em audiência no Congresso em outubro de 2009, a entidade anunciou sua renúncia à execução do programa federal de proteção (vigente nos oito estados sem programas estaduais) e ao monitoramento nacional dos programas estaduais. Passou a manter apenas a execução do programa em Pernambuco.



“Esse modelo [de proteção a testemunhas] já não dá conta da grande criminalidade que existe hoje no país. Se prestamos algum serviço, nós o fazemos ajudando a colocar na cadeia o ladrão de galinha”, disse na ocasião Jayme Benvenuto, presidente do conselho deliberativo da ONG.



Benvenuto criticava o que vê como incapacidade de o programa absorver testemunhas de crimes complexos, como fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. Limitação também identificada pelo procurador da República Alexandre Gavronski, que atuou por oito anos no programa em São Paulo e em Mato Grosso do Sul.



"O tipo de testemunha de crimes de 'colarinho branco' são pessoas de maior instrução e poder econômico. Essas pessoas, de boas condições econômicas e culturais, acabam não se adaptando às regras bastante restritivas do programa", diz Gavronski.



O responsável pelo programa no governo federal, Fernando Matos, defende a eficácia do modelo brasileiro de proteção, baseado na participação da sociedade civil.



Diretor de Defesa dos Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, Matos, que já trabalhou no Gajop, disse que as críticas da ONG sobre o modelo são isoladas. Afirmou que o Provita está atento a críticas e tem buscado diálogo permanente com os envolvidos no programa. "Não vejo no Brasil as entidades da sociedade civil questionando esse modelo", diz.

Histórico e funcionamento

O Provita é gerenciado pelo governo federal, por meio da SDH. A execução, contudo, é descentralizada. A União fecha convênios com os estados, que firmam parcerias com ONGs que tocam os programas. As entidades contratam técnicos (advogados, psicólogos, assistentes sociais) e gerenciam a rede de voluntários que ajuda no acolhimento às testemunhas.



Embora o governo federal forneça a maior parte dos recursos, os programas estaduais são autônomos. A União monitora os programas estaduais e mantém, também em execução terceirizada, um programa federal em estados que não possuem seus programas. Há ainda um programa federal específico para proteção a crianças e adolescentes ameaçados de morte e outro de proteção a defensores de direitos humanos.



De 1997 a 2009, o Provita recebeu cerca de R$ 90 milhões em recursos federais e R$ 30 milhões em contrapartida dos estados. Mas a descontinuidade nos repasses é um dos principais problemas do programa. Muitas vezes a burocracia atrasa a renovação dos convênios dos estados com as ONGs e o dinheiro não chega em tempo.



“Já passamos até sete meses sem repasse de recursos. É muito conveniente para o estado, que sabe que pelo caráter militante das ONGs elas manterão o programa funcionando”, disse ao G1 o presidente do conselho deliberativo do Gajop, ao defender um modelo com maior participação estatal.



Salários baixos, regime de 'plantão permanente' e trabalho sob pressão contribuem para a alta rotatividade das equipes técnicas do programaEquipes sob pressão

Diagnóstico semelhante tem Luis Carlos Cintra, coordenador do Provita do Maranhão. Cintra chama atenção para o baixo salário médio de técnicos que, sob pressão e em regime de "plantão permanente”, recebem, segundo ele, de R$ 2.500 a R$ 3.000, considerando a média nacional.



“Se fosse no serviço privado você teria hora extra, adicional noturno, coisas que não existem no programa e que impõem ônus ao empregador”, diz Cintra, sem deixar de defender a importância da iniciativa.



A questão trabalhista foi o estopim da saída do Gajop do programa federal e do monitoramento nacional. Um ex-funcionário obteve na Justiça o direito a receber R$ 80 mil em ação trabalhista, e o Estado não assumiu a dívida, o que a ONG hoje contesta em segunda instância.



Há ainda questões como a ausência, na maioria dos estados, de documentos de identificação funcional com nomes fictícios e de equipes de segurança específicas para os técnicos do programa.



Somados, esses problemas explicam a alta rotatividade nas equipes técnicas de proteção, aponta o procurador da República Alexandre Gavronski.



“É um problema de consequências nefastas ao programa. Às vezes não há contratação regular pela CLT, porque as entidades têm medo de ser responsabilizadas [em eventuais ações]”, diz Gavronski, ressaltando que em São Paulo, estado que paga os melhores salários do Provita no país (aproximadamente o dobro da média nacional), foi constituído um fundo específico estatal para pagamento de passivos trabalhistas.



Matos, da SDH, afirma que o governo federal tem feito o que pode para evitar os atrasos, como repassar recursos aos estados em cota única. Diz ainda que os convênios do Provita são menos burocráticos em razão da natureza do programa - podem ser fechados, por exemplo, em período eleitoral. "Mas se os projetos vêm incompletos ou os estados têm problemas com a União, são causas [de atraso] intransponíveis", diz.



Sobre a questão trabalhista, ele afirma que os direitos sociais, como 13º e férias, começaram a ser pagos aos técnicos do programa justamente no início do governo Luiz inácio Lula da Silva, em 2003. Diz que a União orientou as ONGs executoras a acertar contratos de trabalho com os técnicos para definição de questões como pagamento de horas extras. "Se as instituições não estão seguindo essa orientação, aí é com as entidades."



Programa ainda não registrou gastos com treinamento de equipes em 2010, mas governo federal diz que investimento em capacitação é permanenteCapacitação não recebeu investimentos em 2010

Embora auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) tenha reconhecido “diversas ações voltadas ao treinamento” de pessoal no Provita, o programa ainda não registrou pagamentos nessa área em 2010, apontam dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) compilados pela ONG Contas Abertas a pedido do G1.



E m 2009, o gasto na rubrica “Capacitação e Formação de Agentes Operadores dos Serviços de Proteção” foi de R$ 144,5 mil. Desde 2001, apontam os dados do Siafi, a despesa somou R$ 2,43 milhões.



Matos diz que o programa ainda não registrou gastos em 2010 porque uma oficina de treinamento que realiza periodicamente ficou para dezembro. Afirmou ainda que desde 2009 há cursos de especialização online para as equipes técnicas, além das ações de capacitação promovidas pelos estados.



Nova vida esbarra em problemas de gestão

Desde 1998, ano em que, após três anos de existência, passou a ter chancela federal, o Provita protegeu mais de 2.000 pessoas, das quais mais de 850 testemunhas. Desde então não há registro de homicídios contra usuários do sistema.



Mas o processo de reinserção social, que é um dos pilares do programa, enfrenta dificuldades. Como a mudança de nome oficial só é feita em casos excepcionais, matrícula em escolas ou atendimento em hospitais públicos podem gerar quebra de sigilo, como apontou a auditoria do TCU, realizada em 2004. Desde então, o programa foi monitorado outras duas vezes.



“As atividades oferecidas para a reinserção social dos beneficiários têm sido prejudicadas pela precariedade da articulação com órgãos e programas de governo, feita geralmente de forma pessoal. O acesso a serviços de saúde, educação e assistência social, por exemplo, não é garantido de forma institucional, podendo ser interrompido em caso de mudança de gestores estaduais e municipais”, registrou o TCU ao avaliar o programa.



O diretor da SDH afirmou que o desafio da inserção da testemunha em serviços públicos sem prejuízo ao sigilo vai ser discutido por uma comissão intersetorial com participação de 20 ministérios e da Caixa Econômica Federal, constituída recentemente.



Governo tenta obter prioridade a processos com testemunhas protegidas

A lentidão dos processos em que há testemunhas protegidas é outro desafio ao sistema no Brasil. “A impunidade acaba penalizando a vítima duplamente”, diz Gilson Cardoso, coordenador nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos.



Em 2007, o governo enviou ao Congresso projeto de lei que prioriza a tramitação de inquéritos e processos com testemunhas protegidas. A proposta foi aprovada na Câmara, mas aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado desde junho de 2009.



Matos diz que enquanto a iniciativa não é aprovada o governo busca incentivar o Judiciário a adotar normas internas para priorizar os casos com testemunhas protegidas, como já ocorre, por exemplo, em São Paulo.



O diretor da SDH afirma que o próprio governo reconhece a necessidade de maior envolvimento estatal no programa, mas defende como eficaz e "único no planeta" o modelo brasileiro baseado em parcerias com a sociedade civil. "Pela complexidade do tema, que é a proteção a vidas humanas, [contra o] crime organizado, estamos tendo êxito", afirma.

Colômbia: 50 lideranças foram mortas em 90 dias de governo Santos

Colômbia: 50 lideranças foram mortas em 90 dias de governo Santos

O Partido Polo Democrático Alternativo (PDA) denunciou na quarta-feira (10) que ao menos 50 líderes políticos e sociais foram assassinados na Colômbia nos 90 primeiros dias do governo do presidente Juan Manuel Santos, sucessor do ultradireitista Álvaro Uribe. Segundo a legenda, as mortes são consequência da crise humanitária que vive a nação sul-americana.

A presidente do PDA, Clara Lopes, disse em comunicado apresentado ao Comitê Executivo Nacional (CEN) que as vítimas são políticos de esquerda, sindicalistas, dirigentes sociais, camponeses, indígenas e jovens, assim como defensores dos direitos humanos para a população homossexual e crianças. "Trata-se de uma crise humanitária com números verificáveis e casos constatados."

De acordo com Clara, o PDA observa com preocupação esse "fenômeno de ameaças e assassinatos", além de propor a fazer "um seguimento detalhado" sobre "a população vulnerável que não conta com as garantias suficientes por parte do Estado para proteger suas vidas". Clara enfatizou que a Colômbia "vem sendo vítima de um plano de extermínio" contra os setores sociais e a população vulnerável, "sem que a cúpula do governo reaja" para dar "as suficientes garantias a vida, honra e bens das vítimas".

Na última sexta, Elizabeth Silva Aguilar, presidente da Associação dos Sem-Teto e Refugiados de Bucaramanga, noroeste da Colômbia, foi assassinada por desconhecidos que invadiram sua casa em um bairro dessa cidade, informou o PDA, que assegurou que esse assassinato foi cometido por "paramilitares supostamente não mobilizados". Para o PDA, "é um assassinato a mais que se soma a cadeia de crime e intimidações contra essa comunidade".

Representantes de organizações de refugiados denunciaram que, nos últimos seis meses, ao menos cem líderes de direitos humanos foram assassinados na Colômbia. A guerra "se mantém sobre todo o sul da Colômbia". Segundo o integrante da Associação de Afrocolombianos Desplazados (Afrodes), Roseliano Riascos, "primeiro chegaram panfletos ameaçadores e logo se deram os assassinatos".

Riascos enfatizou que "a nova estratégia contra os líderes dos refugiados já não são massacres – e, sim, mortes seletivas e desapropriações". Segundo a Consultoria para os Direitos Humanos e o Refúgio, desde de 2002 há registro de assassinatos de líderes refugiados na Colômbia.

A ONG colombiana Codhes afirmou nesta terça que 3,7 milhões de pessoas foram vítimas de refúgios forçados, consequência do conflito armado que assola a Colômbia há cinco décadas, transformando-a na nação com maior número de refugiados do mundo.

Da Redação, com informações da Fórum e da TeleSur

domingo, 14 de novembro de 2010

G20 e Direitos Humanos - Larissa Ramina


G20 e Direitos Humanos

Sem aprofundar a dinâmica das relações entre o G20 e a ONU, a percepção do G20 nas discussões sobre os direitos humanos parece bastante conveniente, vez que propicia a oportunidade de abordar a temática entre países de concepções filosóficas diferenciadas, fora do âmbito institucional da ONU.

A recente reunião do Grupo dos 20 propiciou o ambiente para que se retomassem as discussões acerca de sua legitimidade e competência, vez que o Grupo é percebido em alguns círculos como um concorrente da Organização das Nações Unidas. O próprio Presidente Barack Obama proclamou o G20 como o "ponto focal para a coordenação internacional", relegando o mandato da ONU sobre direitos humanos, igualdade de gênero, boa governança e manutenção da paz à competência do Grupo.

Sem aprofundar a dinâmica das relações entre o G20 e a ONU, a percepção do G20 nas discussões sobre os direitos humanos parece bastante conveniente, vez que propicia a oportunidade de abordar a temática entre países de concepções filosóficas diferenciadas, fora do âmbito institucional da ONU. Num momento em que a necessidade de diálogo intercultural entre as nações mostra-se urgente nas agendas domésticas e internacional, propiciar aos intelectuais de países não ocidentais voz mais ativa, em foro que emergiu da iniciativa de países em desenvolvimento, resta no mínimo interessante.

Os atentados de 11 de setembro tornaram incontestável a urgência do diálogo intercultural. De imediato, foi nas culturas que se buscou respostas para compreender as razões que levaram ao ocorrido. Paralelamente ao discurso do "choque de civilizações", houve quem afirmasse que se trataria sim de um "conflito de indiferenças" de culturas que jamais dialogaram, ou que pelo menos não dialogaram o suficiente para a construção de um caminho de tolerância e respeito. Inseridas num contexto de globalização econômica, é quase inimaginável a existência de culturas intocáveis e protegidas de influências externas, sendo que em muitos casos as identidades culturais mesclam-se e transformam-se. Em outros casos, porém, a imposição universal de valores inerentes aos países dominantes no cenário econômico internacional, provoca repulsa em determinadas culturas, contribuindo para o fortalecimento dos fundamentalismos.

Vandana Shiva, importante intelectual indiana na área dos direitos humanos, afirma que os atentados terroristas são fruto da erosão das formas de identidade múltiplas. Aqueles que são vulneráveis e "disponíveis" a ser alistados, pagos ou explorados pelos extremistas para cumprir ações de terrorismo são aqueles que foram afastados à força da sua terra, que foram considerados supérfluos e "excedentes" com relação às próprias sociedades; ou aqueles que foram mobilizados e recrutados por meio da construção fictícia de identidades que se excluem umas às outras com base em maniqueísmos como "ou isto ou aquilo". Acrescenta que nunca deve ocorrer "ou isto ou aquilo", mas sempre um "isto e aquilo", e que só será possível desconstruir a idéia das identidades incompatíveis cultivando a responsabilidade de cada um com relação ao seu lugar de origem e junto com a consciência de que cada um forma parte de uma humanidade comum, que compartilha o mesmo planeta. Nessa perspectiva, há uma íntima conexão entre sustentabilidade ecológica e justiça social. 

Para as classes rurais, os recursos naturais e ecológicos constituem a fonte principal do seu sustento. Por isso, quando esses recursos são objeto de apropriação indevida pelas grandes corporações transnacionais, chega-se a uma situação de insustentabilidade ecológica e, conseqüentemente, à injustiça social e econômica. 

Por outro lado, a sustentabilidade ecológica e a justiça social estão conectadas à paz, porque é justamente da injustiça social e do crescimento da desigualdade que o fundamentalismo se alimenta. A história da paz e da guerra na humanidade é resultado da gestão de diálogos entre coletivos diversos, e essa história nos revela a proximidade entre a coesão e a ruptura social, entre a tolerância e o fundamentalismo. De mais a mais, não é por acaso que a quase totalidade dos conflitos armados existentes ocorre em países do mundo em desenvolvimento.

Vandana Shiva combate a idéia simplista de que a classe pobre é composta daqueles que demonstraram incapacidade de enquadrar-se nas regras capitalistas. Para a ativista, os pobres são aqueles que ficaram excluídos de qualquer possibilidade de integrar-se no sistema, uma vez que a eles impediu-se o acesso aos próprios recursos de um sistema econômico que destrói o controle público sobre o patrimônio biológico e cultural. Nesse sentido, defende a necessidade de preservar os bens comuns do avanço desenfreado da globalização neoliberal, impedindo a exclusividade das formas de vida e de conhecimento e construindo o que foi denominado de "democracia ecológica". Trata-se de uma democracia que visa à proteção da biodiversidade, e ao reconhecimento dos vínculos inquebráveis entre sustentabilidade ecológica e justiça social.

O conceito de biodiversidade, por sua vez, pode ser comparado ao de diversidade cultural. A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da Unesco, adotada no imediato pós-11/09/2001, reconhece a "diversidade cultural" como "patrimônio comum da humanidade". A preservação dos ecossistemas depende diretamente da variação de seus elementos, sendo que a perda de um desses elementos pode implicar transformações catastróficas para outros. Da mesma forma, a diversidade cultural é o alicerce da permanência e da evolução das culturas.

No século XXI, o modelo de Estado que deve prevalecer é o do Estado Democrático, Social e Ambiental, aquele que projeta sua ênfase no valor da dignidade humana, envolvendo-se na proteção dos direitos fundamentais compreendidos como "bloco indivisível de direitos", em que a proteção dos direitos civis e políticos exige a proteção dos direitos econômicos sociais e culturais, e todos eles pressupõem o respeito aos direitos coletivos, onde insere-se o direito de proteção ao meio-ambiente. O G20 pode ser um importante foro de discussão para a formação de verdadeiros consensos interculturais acerca das concepções de direitos humanos.


LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil e da UniCuritiba.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Indígenas pedem suspensão de hidrelétrica de Belo Monte à Comissão Interamericana de Direitos Humanos


Indígenas pedem suspensão de hidrelétrica à CIDH

Folha.com

Grupos indígenas e organizações de direitos humanos solicitaram à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) a suspensão da construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia brasileira, informou nesta quinta-feira (11) a organização "Amazon Watch".

Os denunciantes argumentam ameaças graves e irreversíveis aos direitos de, pelo menos, quatro comunidades indígenas pela construção da que seria a terceira maior represa do mundo.

As organizações solicitaram medidas cautelares de caráter urgente perante a CIDH para proteger as comunidades Arroz Cru, Arara da Volta Grande, Juruna do Km 17 e Ramal das Penas, que podem ser obrigadas a sair de suas terras.

O pedido foi apresentado pelo "Movimento Xingu Vivo Para Sempre", "Conselho Indigenista Missionário", "Justiça Global", "Prelazia do Xingu", "Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos" e pela "Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente".

Os indígenas lamentam não terem sido consultados e apontam a falta de medidas adequadas para garantir a proteção dos direitos e do meio ambiente. As organizações denunciam que o governo brasileiro não estudou adequadamente o impacto que teria nas comunidades do Rio Xingu.

A hidrelétrica de Belo Monte, licitada em abril, que será construída na floresta amazônica, prevê uma potência máxima de 11.233 megawatts. 

"Amazon Watch" lembra que a CIDH concedeu medidas cautelares em outros casos similares de grandes projetos de infraestrutura, como a usina hidrelétrica Chan 75 no Panamá, em 2009.