sexta-feira, 21 de março de 2008

SEDH debate o controle da atividade policial no 2º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em Recife



18/03/2008 - 16:35

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR) participa, na próxima semana, do 2º Encontro Anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O encontro acontece de 26 a 28 de março, em Recife, Pernambuco, no Mar Hotel Recife (rua Barão de Souza Leão, 451, Boa Viagem)."Embora seja novo, o evento firma-se com um dos mais importantes da área pois é um espaço de discussão séria e democrática", afirma Isabel Figueiredo diretora nacional do Programa de Apoio Institucional às Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário da SEDH. Segundo ela, o evento reúne profissionais de todos os estados, linhas políticas e polícias para debater o tema.O objetivo principal é reunir policiais, gestores e pesquisadores da área de Segurança Pública de todo o país para a troca de experiências, apresentação de trabalhos e debates sobre o tema. Isabel coordenará a mesa "Controle da Atividade Policial", que terá a participação de Benedito Mariano, da Secretaria Municipal de Administração de Osasco, Benedito Mariano; o coronel da Polícia Militar do Mato Grosso do Sul, Carlos Alberto Pereira; e o representante do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, Evandro Kaltbach. O debate acontecerá na quinta-feira, 27, às 14h, na sala Carlos Pena 2. O evento é aberto a todos os profissionais que atuam na Segurança Pública do país, a inscrição é gratuita.

Fermino Fechio: “RN dá mau exemplo ao Brasil”

TRIBUNA DO NORTE (17.03.08)


As denúncias e investigações sobre a suposta ação de um grupo de extermínio no Rio Grande do Norte que, segundo as autoridades do Estado já admitem, pode contar com a participação de policiais, preocupa o ouvidor da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (Sedh), Fermino Fechio. Na entrevista que segue, o ouvidor ressalta que o RN é um dos Estados sobre os quais a Sedh mantém um monitoramento mais próximo em função dos casos e denúncias.

Sobre a “inércia” do Comando da PM/RN em punir os policiais citados ou denunciados como supostos envolvidos em crimes - seja ele de morte ou não -, o ouvidor alerta que o alto escalão da Polícia Militar comete um grave erro porque nivela os bons e os maus policiais.

Fermino Fechio afirma que deve instalar, nos próximos dias, o Programa Federal de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) no Rio Grande do Norte. O ouvidor vai além e diz que o Rio Grande do Norte é o Estado com o maior número de pessoas cadastradas no Provita. Ele incentiva as denúncias, assegurando que podem ser anônimas.
A SEDH tem acompanhado os casos de execuções com características de atuação de grupo de extermínio no RN?
O Rio Grande do Norte é o Estado que mais tem pessoas cadastradas e sob a proteção do Programa Federal de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita), de responsabilidade da Secretaria Especial dos Direitos Humanos(SEDH/PR) - o que já é um sinal mais do que evidente da existência e atuação de grupos de extermínio nesse Estado. Infelizmente essa má fama do Rio Grande do Note não é de agora. São conhecidos, inclusive internacionalmente, os casos vergonhosos dos “meninos de ouro” - grupo criminoso, com envolvimento de alguns policiais e autoridades do governo, à época; a chacina da “Mãe Luíza” (1995); os assassinatos do advogado Gilson Nogueira (1996) e do decorador Antônio Lopes (1999). A SEDH acompanha, sim, com preocupação, as notícias de execuções praticadas por grupos de extermínio em vários Estados e, em especial, em Alagoas, Paraíba e, claro, Rio Grande do Norte.

Que tipo de ações a SEDH propõe para o combate a grupos de extermínio e violência policial?
Há várias ações comumente lembradas e sugeridas para enfrentar esse mal. Exemplo: eleger a segurança pública realmente como prioridade de governo; investir nos programas de seleção, capacitação técnica, formação e avaliação permanente dos policiais e agentes; substituição de regulamentos policiais arcaicos, corporativos, por legislação atualizada, avançada, que incorpore as exigências técnicas, científicas e democráticas para o enfrentamento dos desafios que ameaçam a segurança das pessoas e da sociedade; órgãos periciais independentes, bem dotados de equipamentos e recursos; emprego de técnicas e armamentos não letais; e tantas outras medidas práticas que podem ser adotadas pelo Poder Público. Mas, permita-me acrescentar: nada disso resolverá, no meu entender, se a sociedade (Ouvidoria, Coordenadoria, Ministério Público, Imprensa, ONGs) não se empenharem em exercer um controle social atento, diligente, constante sobre a atividade policial. Quantos inquéritos policiais foram instaurados e quantos estão parados, sem solução? Quantos policiais morreram em serviço e quantas pessoas foram mortas pela polícia? O percentual de crimes, mês a mês, ano a ano: está subindo? Está diminuindo? Onde acontecem? Nos assassinatos: o local foi preservado? O delegado compareceu ao local como manda a lei? Foi feita a perícia? Quais os policiais que estavam de serviço? Quais viaturas? Quem estava nas viaturas? A sociedade tem o direito de ter acesso a todas as informações que lhe permitam avaliar a quantidade e a qualidade dos serviços de segurança pública. E o Poder Público tem obrigação de fornecer todas essas informações, regularmente.


O que favorece o surgimento e fortalecimento de grupos de extermínio e milícias?Certamente há vários fatores que contribuem para essa prática nociva que, é bom lembrar, não começa da noite para o dia, de repente. Ela vai se instalando aos poucos, se fortalecendo, ganhando adeptos e simpatizantes... O que há de comum nesses processos, em vários Estados brasileiros: 1) Ausência ou omissão dos poderes públicos: nas periferias das grandes cidades ou no interior, no sertão, é lá que proliferam esses grupos. 2) A convivência e a cobertura de alguns comerciantes, fazendeiros, políticos, de certos meios de comunicação, gente que exibe essa cultura autoritária que só entende a violência, o uso da força como única solução para os problemas da segurança pública. 3) A desinformação e a falta de reação da sociedade, como um todo. Polícia, Segurança Pública, isto é assunto para especialistas. Igrejas, escolas, câmaras municipais, prefeitos, ninguém quer tratar disso. Deixa para a tropa de elite, ela resolve... No início, a população até simpatiza com a truculência, com a “faxina” social, acha que eles são “do bem”, “osso duro de roer, pega um, pega geral...” Mas o refrão da música continua: “também vai pegar você...” Aí as pessoas passam a ter medo, acordam. E a maioria se cala, ninguém sabe, ninguém viu... As matérias recentes publicadas aqui na Tribuna confirmam tudo isso.
Aqui no RN tivemos um caso de testemunha de grupo de extermínio da PM assassinada. A vítima, Gustavo Alves, executado a tiros no ano passado, tinha abandonado o Serviços de Assistência e Proteção a Testemunhas Ameaçadas e retornado à Natal. Como funciona o programa? Que garantias ele oferece? O RN tem utilizado esse programa?

Realmente, Gustavo Alves Cardoso fez parte do Programa Federal de Proteção a vítimas e Testemunhas Ameaçadas, durante um certo tempo. Ele tinha sido vítima de tentativa de homicídio, em 2003, prestou depoimento na Polícia Civil, identificou os agressores, deu nomes dos PMs, suas informações ajudaram a esclarecer a autoria de vários homicídios que tinham ocorrido em Natal-RN. Foi depois disso que ele pediu proteção ao programa, em que ingressou em 2004. Todo protegido pelo programa tem direito a proteção, acomodação, ajuda financeira, assistência, mas se compromete, por escrito, a obedecer regras rígidas de segurança, para não colocar em risco todo o esquema e os outros protegidos. Foi muito difícil para Gustavo suportar a separação da família e a distância de Natal. Saiu e ingressou no programa várias vezes. Numa dessas, quebrou as regras e voltou a Natal, onde foi executado, não faz muito tempo. Ainda este ano, 2008, depois de muita negociação e definição da contrapartida do Estado, o programa vai ser instalado em Natal pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos.
O comando da polícia do RN admite dificuldade em expulsar PMs, inclusive aqueles já condenados em primeira instância por crimes graves como homicídios. Alegam que o código militar é ultrapassado e que a expulsão só ocorre com o trânsito em julgado do processo - podendo demorar anos em tramitação. Que risco uma corporação corre ao não expulsar os maus policiais? O que pode ser feito para diminuir a impunidade no meio policial?
Essa desculpa, me perdoem, não tem sustentação nem moral, muito menos jurídica. Há bons juristas e promotores no Rio Grande do Norte que, com certeza, podem confirmar o que digo. Todo mundo sabe - e a nossa história é pródiga de exemplos - a força do poder disciplinar dos comandos sobre a tropa. Ocorre que esse poder disciplinar tem sido usado, no Brasil, para punir, ilícitos de dentro do quartel (atrasos, barba mal feita, uniforme sujo, descuido como cavalo, cheque sem fundos...) e não para punir crimes praticados contra os populares: abusos, agressões, torturas, chacinas, execuções. Isso prejudica a reputação de toda a corporação. Nivela todos os policiais, bons e maus. Coloca em risco a segurança e a vida dos bons policiais. Lembro o caso recente do meu Estado, São Paulo: há anos, a Ouvidoria da Polícia denunciava a participação de PMs no grupo de extermínio da Zona Norte da Capital. Os comandos - Secretário de Segurança, inclusive, sempre se omitiram e diziam que ouvidor é para ouvir e não para falar...Resultado: trocou a comandante, o coronel começou a investigar os PMs corruptos e foi executado, em plena avenida, à luz do dia, por aqueles mesmos PMs... Só então, depois da tragédia, 58 PMs foram afastados do 18º BPM da Capital. Combater a impunidade tem que ser preocupação constante das autoridades, do Ministério Público, do Judiciário, de toda a sociedade.


Como a SEDH analisa a implementação das políticas de direitos humanos no RN? O que o Governo Federal tem feito no RN na área dos direitos humanos?
Felizmente, no Brasil, hoje, o Governo Federal assumiu que o respeito e a garantia dos direitos humanos é política de Estado e que a proteção e a promoção desses direitos tem que sair do papel, do plano das idéias e intenções, e se transformar em realidade, em programas concretos, envolvendo todos os organismos governamentais, incluindo todos os poderes e as organizações sociais.Direitos Humanos em sentido amplo: direitos da cidadania, da criança, do adolescente, do idoso, das pessoas com deficiências, direitos das minorias, direito à alimentação, direito à vida, direito ao registro civil de nascimento... A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República tem a incumbência legal de coordenar toda a política nacional de direitos humanos. Todo o empenho da Secretaria tem sido no sentido de articular iniciativas e apoiar projetos voltados para a proteção e promoção desses direitos em todo o Brasil, inclusive no Rio Grande do Norte, onde já existem e funcionam: - Centro de Referência para Idosos, espaços de convivência exclusivo para maiores de 60 anos, com atendimento médico, atividades culturais e educacionais; - Centro de Referência de Combate à Homofobia, espaço de promoção ao respeito à diversidade sexual, em parceria com o governo estadual; - Balcão de Direitos, para atendimento e orientação jurídica aos segmentos mais pobres;
- Ouvidoria da Polícia, que atende todas as pessoas, inclusive policiais vítimas de violência, tortura, extorsão, discriminação e abusos praticados por policiais. A ouvidoria também é apoiada pela SEDH através do nosso Programa de Apoio Institucional às Ouvidorias de Polícia. Nos próximos dias, como já foi dito, em parceria com o Governo Estadual e a sociedade civil, vai ser instalado o Provita para garantir proteção e contribuir para diminuir a impunidade no Rio Grande do Norte.

sábado, 1 de março de 2008

SUS gasta R$ 4 bi por ano com vítimas de violência, diz Conselho de Secretários

LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio

A violência das grandes cidades brasileiras onera em cerca de R$ 4 bilhões por ano o SUS (Sistema Único de Saúde), afirmou o presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e secretário da Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, na manhã desta quinta-feira. Ele participa de encontro no Rio com secretários de Estados como Rio e São Paulo para discutir os impactos da violência na saúde pública.
"A violência sobrecarrega demais o sistema de saúde", disse Terra, durante o seminário "Violência: uma epidemia silenciosa", que discutiu, nesta quinta-feira no Guanabara Hotel, no centro do Rio, experiências de Estados do Sudeste para o combate à violência.
"A violência é uma questão social e prova disso é que, no Brasil, há 29 homicídios por cada 100 mil habitantes, enquanto no Japão há apenas 1 por 100 mil habitantes".
O secretário estadual de Saúde de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Baratas, afirmou que a violência é a terceira causa de mortes no Estado e defendeu integração com a Secretaria de Segurança. "Na medicina, quando temos um caso difícil, não devemos atendê-lo sozinho. Com a violência é a mesma coisa", discursou.
O Conass, que organiza o encontro, defende um trabalho integrado entre as secretarias de Saúde e Segurança dos Estados para diminuir a violência. "Não dá mais para deixar as secretarias de Segurança cuidando das causas e nós das conseqüências", afirmou Terra, que defendeu políticas como a presença de médicos de famílias em áreas consideradas de risco.
Criticado por entidades de direitos humanos por fazer uso da política de enfrentamento em comunidades de baixa renda do Rio, o secretário de Segurança fluminense, José Mariano Beltrame, disse no encontro acreditar que a violência só terá fim "se elevarmos os índices de direitos humanos e civilidade".
"As operações policiais são necessárias, mas o trabalho maior [para combater a violência] é o da promoção da vida".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Campanha "Conte para a Ouvidoria - nós contamos com você" é lançada em Pernambuco


Jornalistas, comunicadores populares e radialistas de Pernambuco têm encontro marcado no próximo dia 29 de fevereiro, sexta-feira, das 10h às 14h, no Auditório Calouste Gulbenkian da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), para o lançamento da campanha radiofônica de apoio às Ouvidorias de Polícia no Brasil. A campanha, promovida pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, com financiamento da União Européia, e parceria com a Oboré Projetos Especiais em Comunicações e Artes, tem como objetivo ampliar e implementar ações de comunicação que busquem apoiar, divulgar e popularizar a existência e o trabalho das Ouvidorias de Polícia junto à população, especialmente através do rádio.
O evento em Pernambuco contará com a presença de Isabel Figueiredo, diretora do Programa Institucional de Apoio à Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário da SEDH; Jean François Olivier, da assistência técnica européia do Programa Institucional de Apoio à Ouvidorias de Polícia e Policiamento Comunitário; Fernando Lyra, presidente da Fundaj e ex-Ministro da Justiça; Antonio Funari Filho, coordenador do Fórum Nacional de Ouvidores de Polícia e Ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Amparo Araújo, Ouvidora Geral da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e Ana Luisa Zaniboni Gomes, jornalista, pesquisadora, gestora executiva do projeto e autora do livro “Na boca do rádio: o radialista e as políticas públicas”. A campanha acontecerá nos 14 Estados brasileiros que contam com Ouvidorias de Polícia: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Santa Catarina. A campanha já foi lançada em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Mato Grosso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Brasil terá comissão para combate à tortura em presídios

Vinicius Konchinski Repórter da Agência Brasil

São Paulo - Uma comissão independente será criada até o final deste ano para vistoriar locais em que há cidadãos presos e combater possíveis práticas de tortura existentes nesses lugares. A informação é do coordenador-geral de combate à tortura da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), Pedro Montenegro, que participou hoje (25) da abertura de seminário internacional sobre o tema na Universidade de São Paulo (USP).“A comissão vai vistoriar todo e qualquer local onde há pessoas privadas da liberdade e fazer relatórios que serão encaminhados às autoridades competentes, a fim de exigir melhorias”, afirmou Montenegro, em entrevista à Agência Brasil. “Estudos internacionais demonstram que visitas regulares a esses locais ajudam a criar ambientes seguros”, acrescentou.

A criação da comissão, informou, faz parte de um compromisso firmado entre o Brasil e a Organização das Nações Unidas (ONU), em junho de 2006, e por esse acordo a comissão deve ser permanente e de caráter “público não estatal”, só atrelada ao governo para receber os recursos necessários a suas atividades.“O órgão vai resolver um problema muito grave do Brasil, que não conta com dados precisos, cirúrgicos, que auxiliem o combate desta prática nefasta", disse.Montenegro admitiu que, quase 60 anos depois da publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 20 anos após a promulgação da Constituição – que condenam a tortura –, a camada mais pobre da sociedade brasileira ainda sofre com abusos de policiais e agentes penitenciários, principalmente. “No Brasil ainda existem a tortura para obtenção da confissão e a tortura para castigo, que acontece quando a pessoa já está presa”, explicou.

De acordo com Montenegro, dois problemas básicos impedem a redução dos casos de tortura no país: o primeiro, a crença de parte da população que considera a tortura policial necessária para sua segurança, já que intimida os bandidos; o segundo, a dificuldade de punição dos torturadores. “Em casos concretos, quando é aberto um processo contra o torturador, quase nunca ele é condenado pela Justiça”, contou.

O seminário vai até quarta-feira (27), na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU).

Sistema carcerário é prioridade na revisão de Programa Nacional de Direitos Humanos

Adriana Brendler Repórter da Agência Brasil

Brasília - Secretários de Direitos Humanos de vários estados participaram hoje (26) de reunião para discutir a atualização do Programa Nacional de Direitos Humanos prevista para o final deste ano. O documento foi criado em 1996 e revisado em 2002.
O item apontado como uma das prioridades a serem contempladas na elaboração de uma nova versão do programa foi a questão do sistema carcerário brasileiro, onde direitos humanos são freqüentemente violados.“Os secretários disseram que há um colapso no sistema penitenciário: super-população, violência interna, altíssima taxa de rebeliões. Isso não pode continuar” afirmou o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), que presidiu a reunião.
Outro ponto discutido foi a necessidade de sensibilizar o Poder Judiciário para minimizar distorções que levam a violações de direitos humanos no sistema prisional. Segundo o ministro, os secretários voltam aos seus estados com a disposição de visitar os tribunais de Justiça e propor a ampliação do debate.
Para Socorro Gomes, secretária de Justiça e Direitos Humanos do Pará, é preciso encarar o problema – no estado, 80% dos detentos são provisórios e, segundo ele, estão carceragens inadequadas para a ressocialização. “Pessoas que roubaram uma TV ficam dois anos num presídio sem ser ouvidas”, disse, ao lembrar que o Poder Judiciário é peça fundamental para os direitos humanos e que a aplicação de penas alternativas poderia ser mais intensamente utilizada pelos juízes.
Ela também destacou como desafios no estado o trabalho escravo e a dificuldade de acesso da população, especialmente nos municípios do interior, ao registro de nascimento. Hoje, cerca de 30% dos paraenses não têm o documento.
Já a secretária baiana Marília Muricy disse que a agenda de diretos humanos no seu estado inclui a homofobia, a tortura e a exploração sexual de crianças e adolescentes, além do sistema carcerário. “A linha de frente da agenda é o combate à superpopulação carcerária e a humanização dos presídios”, afirmou. Ela também destacou a atuação dos juízes: "Eles são os aplicadores da lei e justiça sem consciência de direitos humanos é injustiça”.
Ela defendeu as penas alternativas como meio mais econômico e eficiente de devolver indivíduos produtivos à sociedade. E citou que um preso custa mais de R$ 1 mil por mês – em um centro de penas alternativas, o custo não chega a R$ 50.
Durante o encontro, também foi discutida a agenda de comemorações dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos a ser desenvolvida ao longo de 2008. Uma campanha nacional com ações para popularizar o tema e tornar acessível cada um dos 30 artigos da Declaração será lançada pela SEDH no dia 25 de março.
As peças publicitárias serão dirigidas principalmente à população de baixa renda, que será motivada a buscar informações sobre seus direitos e a exigi-los.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

SOBRE OS DIREITOS HUMANOS

Foi publicado hoje, n'O GLOBO de 24/02/2008 com o título de "Onde termina o político e começa o criminoso"

Gláucio Ary Dillon Soares
A polêmica sobre os direitos humanos passa por problemas de definição. Os"direitos humanos" adquiriram um significado muito restrito adotado por algumas organizações internacionais preocupadas com a violência e a violação dos direitos de qualquer pessoa somente pelo estado e seus agentes, em resposta às atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial que, nas décadas seguintes, foi reforçada pela violência de alguns estados contra seus inimigos políticos internos. Organizações e programas foram criados e essas definições aprofundaram suas raízes. Essas definições limitam o significado original da Declaração Universaldos Direitos Humanos de 10 de dezembro de 1948. Se concentram no agente da violação, e não na violação, nem na vítima.

A inadequação cresceu e gerou conflitos porque deixa de fora a violência contra o estado e seus agentes, assim como a maior parte do crime e da violência que acontece no Brasil e no mundo, que é feita por indivíduos e por organizações fora do estado. Deriva de um conceito arcaico e eurocêntrico de estado. Nela, que deu origem ao conhecido binômio "estado e indivíduo", cada um no seu lugar e nada no meio, não há espaço para organizações não públicas, independentemente de tamanho e importância, e crimes cometidos, violentos ou não. É uma visão que começou limitada no espaço que parou no tempo.

No último século cresceram muito organizações intermediárias que superam, em tamanho, muitos estados e que também violam direitos humanos. Empresas como a Microsoft, com ativos superiores à soma dos PIBs de vários países latino-americanos, não encontram lugar nas teorias arcaicas da política, que dizer do estado. Elas produzem bens e serviços, contribuem para o desenvolvimento e, às vezes, violam direitos humanos e matam. A Union Carbide, uma grande multinacional, causou um desastre em Bophal, na Índia, em dezembro de 1984, quando uma fábrica subsidiária de pesticidas liberou 40 toneladas de gás tóxico que mataram entre três mil (dados confirmados, apenas) e mais de 15 mil (outra estimativa). Houve irresponsabilidade culposa: meses antes, cientistas da própria empresa alertaram para o risco de uma tragédia quase idêntica à que ocorreu; três anos antes, uma equipe de cientistas americanos também alertara sobre a ameaça deuma reação fora de controle na área de armazenagem. As mortes foram da ordem degrandeza da causada pelos ataques às Torres Gêmeas. Na definição arcaica, não é uma questão de direitos humanos. Então, o que é?

Empresas e sindicatos não são politicamente neutras e tanto as nacionais quanto as multinacionais participam da política de qualquer país, às vezes ilegalmente. Há, hoje, evidência sobre a participação da ITT no complot para desestabilizar e derrubar Allende. Sua contribuição manteve caminhoneiros e ferroviários em casa, sem trabalhar, contribuindo para a "crise do desabastecimento". A junção entre o público e o privado, às vezes, passa por pessoas. Há, também, um problema de limites nada claros entre o público e o privado: John McCone, membro da diretoria da ITT tinha comandado a CIA e serviu como ponte entre a empresa e a agência, coordenando os esforços para impedir a eleição de Allende e, depois, para derrubá-lo.

Há empresas cujos lucros superam o PIB de vários estados. Em 2006, os da Exxon Mobil, de 36 bilhões de dólares, foram maiores do que o PIB do Paraguai e os da Royal DutchShell, de 25 bilhões, superaram o do Uruguai. Algumas empresas empregam muito mais do que alguns estados. A Wal-Mart, em 2005, empregava um milhão e oitocentas mil pessoas, mais do que toda a população economicamente ativa adulta do Paraguai. Uma só empresa emprega mais do que um país. Todas tem segurança, própria e/ou terceirizada, seus espiões etc. Só não tem, formalmente, território. Tecnicamente, não podem violar direitos humanos.

A visão simplista "estado e indivíduo" exclui organizações poderosas entre os dois. É irreal e errada. A ênfase deriva de supostos arcaicos que forçam uma coincidência artificial entre os limites formais da geografia política e os do exercício efetivo do poder. Em todas as regiões, particularmente no Terceiro Mundo, há territórios que estão fora do controle do estado. Em alguns países com fortes antagonismos tribais, há áreas sob o controle de forças dissidentes - em alguns casos, por décadas. Há formas de organização política que controlam espaços formalmente sob a jurisdição do "estado nacional". As FARC são um exemplo. Manter a ficção da geografia política formal impede considerar os crimes e as violências cometidos por essas organizações como violações dosdireitos humanos.

Não são apenas organizações políticas que podem ocupar espaços dentro da geografia de um estado. As próprias FARC são, cada vez menos, uma organização político-revolucionária e, cada vez mais, uma organização de traficantes, o mesmo se aplicando às organizações de para-militares, opostas às FARC. O mundo se confronta com ações muito violentas de organizações terroristas,como a Al Qaeda. Embora sejam organizações hierárquicas com ambições político-religiosas, algumas das quais atuam em vários países, tão pouco podem violar direitos humanos. Por definição. Nações deixadas sem estado, graças a decisões do imperialismo europeu, como os curdos, e outras, graças à opressão de um estado, como os chechenos, praticam atos de terrorismo. São nações, com uma organização, que lutam por um estado que não existe, cometem e sofrem crimes e violências, que, não obstante, só são violações de direitos humanos quando elas as sofrem e não quando elas as executam. Por essa definição arcaica.

Não são, apenas, organizações políticas que controlam áreas formalmente dentro dos limites de um estado. Organizações criminais também o fazem e, da Colômbia ao Afeganistão é difícil dizer onde termina o político e começa o criminal. Em menor escala, o mesmo se observa dentro de áreas urbanas, quando organizações criminosas, sejam traficantes ou milícias, exercem certo controle e violam direitos da população residente.Os defensores dos direitos humanos são freqüentemente acusados de simpatizar com a bandidagem, hostilizando a polícia. Não é verdade. Trabalham coerentemente dentro de uma definição de direitos humanos, essa, sim, atrelada à condição de que o único agente capaz de violá-los é público. Está na hora de ampliá-la, analisando os direitos humanos como um direito de todos,que podem ser violados por qualquer indivíduo ou organização.